Mostrando postagens com marcador Simone de Beauvoir. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Simone de Beauvoir. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 16 de outubro de 2018

nova edição do curso Mulher e literatura: Woolf, Beauvoir e tantas outras

O curso tem duração de quatro encontros:
Quartas-feiras, 31/10, 07, 14 e 21/11 das 19h às 22h no Eugênia Café Bar - Rua Cônego Eugênio Leite, 953 - Pinheiros - São Paulo - SP
taxa única de inscrição: R$ 50,00
Formulário para reserva de vaga e inscrição: https://goo.gl/forms/lOClGmPo14k6ZpS52

As discussões sobre mulheres, feminismos e gênero têm ganhado muita força e amplitude nos últimos anos, principalmente no campo da Literatura. Para além da esfera da Internet, o surgimento de grupos que motivam a leitura de obras de diferentes gêneros escritas por mulheres, o fortalecimento de grupos de escrita para mulheres e do próprio movimento feminista (em suas mais variadas vertentes) traçam um caminho – ainda bem – sem volta. Já não nos deixamos passar imunes à pergunta: “dentre os livros que li esse ano, quantos foram escritos por mulheres?” Até que a descoberta e a busca por autoras tornam-se quase naturalizadas.
Com o objetivo de contribuir com esse movimento, nasceu o curso “Mulher e Literatura: Woolf, Beauvoir e tantas outras”. 
Por que Woolf e Beauvoir? As duas são escritoras consagradas que nos deixaram reflexões ainda muito importantes para pensarmos o problema da construção da ideia de inferioridade da mulher. E ainda, há um “encontro” entre as duas: Beauvoir era leitora de Woolf! Mas, como apreciadoras da literatura que diversas mulheres têm produzido, e cientes da importância do diálogo, do debate, sobre essa produção, como apontamos acima, propomos estendermos nossos comentários, considerando também outras escritoras.
Além disso, um bordado poético inspirado no tema e no conteúdo das aulas será produzido por uma das professoras e fará parte da produção final de um fanzine colaborativo. Ele será criado a partir das impressões e resultados dos exercícios de escrita propostos ao longo dos encontros.

Juliana Oliva é mestra e graduada em Filosofia na Universidade São Judas Tadeu (USJT). Atualmente é doutoranda em Filosofia na EFLCH-UNIFESP, onde pesquisa a relação erótica autêntica como imagem da reciprocidade em Simone de Beauvoir, e tem trabalhado com a oficina “Deve-se queimar Beauvoir?” em espaços de cultura. Também escreve relatos poéticos em um blog chamado “a better version of me”.

Renata Cristina Pereira graduou-se em Letras pela PUC/SP em 2011 e em Filosofia pela USJT em 2017. É mestranda do curso de Filosofia na EFLCH-UNIFESP, onde pesquisa a obra de Virginia Woolf a partir do aparato teórico do filósofo francês Paul Ricoeur. É professora de Literatura na rede privada do ensino básico e educadora de Língua Portuguesa no Curso Popular Mafalda.

Rita Alves é formada em jornalismo, com especialização em Gestão da Comunicação pela ECA-USP. É fundadora da marca de bordados autorais e personalizados Dona Rits (@donarits) e idealizadora do projeto de intervenções urbanas bordadas Cabe Mais Amor (@cabemaisamor). Também bordou um dos painéis cenográficos da peça O Resto é Silêncio, exibida em dezembro de 2017 no Sesc Santo Amaro, e já bordou para o projeto Flores para os Refugiados (@floresparaosrefugiados).

evento no Facebook: https://www.facebook.com/events/151986369081763/ 

terça-feira, 3 de outubro de 2017

nova e última chance de inscrição em "Deve-se queimar Beauvoir?" na Casa Elefante!

O primeiro encontro da atual edição da oficina ocorreu em 30.09. 
Se você perdeu e gostaria de se juntar a nós neste percurso, é possível iniciar a oficina a partir do segundo encontro e nos acompanhar em boa sintonia!


oficina Deve-se queimar Beauvoir? na Casa Elefante 
https://www.facebook.com/events/1955299541405331

4 encontros 


Sábados 30.09, 07, 14 e 21.10 - das 10h às 13:30h

R$ 40,00 (taxa única) em dinheiro ou cartão de débito/crédito


Inscrições na Casa Elefante - Rua Cesário Motta Jr., 277 (sobreloja) 
ou por e-mail: porquenaoqueimarbeauvoir@gmail.com 


sábado, 16 de setembro de 2017

nova edição de "Deve-se queimar Beauvoir?"


Sábados, 30.09, 07, 14 e 21.10 - das 10h às 13:30h na Casa Elefante - Rua Cesário Motta Jr., 277 - sobreloja - Santa Cecília

R$ 40,00 (taxa única)



Deve-se queimar Beauvoir? – oficina para olhar “melhor” a filósofa
Simone de Beauvoir

O nome desta oficina é inspirado no título da análise da filósofa francesa Simone de Beauvoir (1908 – 1986) da moral elaborada pelo filósofo francês Marquês de Sade (1740 – 1814), intitulada Faut-il brûler Sade?, que podemos traduzir como “Deve-se queimar Sade?”, e a proposta, na repercussão da inclusão de uma questão sobre o tema do livro O segundo sexo (1949) de Beauvoir na última prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) no Brasil.
A proposta da oficina é apresentar um panorama sobre a vida e a obra de Beauvoir, com o foco nos conceitos filosóficos da autora necessários para compreender a sua análise sobre a mulher na sua célebre obra sobre o tema, O segundo sexo, e dialogar sobre a importância atual da autora na discussão de questões sobre a mulher e sobre gênero em diversos âmbitos.
Os encontros consistirão em rodas de conversa com o público com base na leitura de trechos de textos de Beauvoir e de textos jornalísticos e manifestações em redes sociais que exaltaram ou aviltaram a sua imagem nos últimos anos, e aulas expositivas, cujos temas serão a vida e a obra da autora, seus conceitos filosóficos a partir da obra Por uma moral da ambiguidade (1947), e a proposta e a estrutura de O segundo sexo. O último encontro será exclusivo para as pessoas que participaram da oficina apresentarem, em linguagens diversas, o seu atual ponto de vista sobre a filósofa após a experiência nas aulas. 

Inscrições na Casa Elefante ou por e-mail: porquenaoqueimarbeauvoir@gmail.com 

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"Deve-se queimar Beauvoir?" na Biblioteca Mário de Andrade


Deve-se queimar Beauvoir?
Oficina
Dia: 17 e 24, das 14h às 17h
Local: Sala infantil
A proposta da oficina é apresentar um panorama da vida e da obra de Beauvoir, com o foco nos conceitos filosóficos da autora necessários para compreender a sua análise sobre a mulher na sua célebre obra sobre o tema, O segundo sexo (1949). O objetivo é discutir o trabalho da escritora além dos aspectos acadêmicos. No último dia da oficina, cada participante terá espaço para apresentar sua produção ou manifestação inspirada na experiência adquirida nos encontros.
Juliana Oliva graduou-se em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu em 2007. Em 2014, como bolsista Capes, concluiu o mestrado em Filosofia com a dissertação Identidade e reciprocidade em O segundo sexo de Simone de Beauvoir. Atualmente, é doutoranda em Filosofia e bolsista da Capes pela EFLCH-Unifesp, onde pesquisa a relação erótica autêntica como imagem da reciprocidade entre homem e mulher em Simone de Beauvoir, a partir dos conceitos de O segundo sexo e das representações na obra literária Os mandarins.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Deve-se queimar Beauvoir?



 flyer lindo divulgado na página do Mafalda



 




Olá. Meu nome é Juliana Oliva e eu estudo Simone de Beauvoir. Oi. Eu sou a Julie, eu saí do facebook há mais de dois anos e eu posto poemas confessionais neste blog anonimamente. Ah! Antes de tudo, dizem que eu sou uma mulher. Eu sou?
Foi da vontade de sumir que vai e volta, que anda fortemente presente nos últimos meses, que surgiu a ideia de criar este blog e, mais tarde, de sair do facebook. Sumir ao menos na vida virtual então. Não tem mais Julie nem Juliana Oliva, fica a better version of me, esta, talvez nem sempre melhor. Foram quatro pedaços de felicidade, quatro dias em que encontrei, graças à querida Renata, dez garotas (Alessandra, Beatriz, Gabriela, Graziela, Jessica, Julia, Lauana, Midria, Thainara e Zaira) e um garoto (Gabriel) no cursinho Mafalda SP Leste I, que me fizeram sair do anonimato neste blog. Ou melhor, não fizeram nada, na minha experiência com elas, com ele, desvelei o mundo de outra forma e escolhi dizer aqui quem eu sou, e o que eu fiz: um curso de férias.
"Deve-se queimar Beauvoir?", inspirado no título do texto da autora "Deve-se queimar Sade?", foi o nome que escolhi para o curso. A ideia era contar sobre a vida e a obra de Beauvoir e ensinar um pouco sobre a sua perspectiva filosófica e a aplicação desta no que diz respeito ao problema - aos problemas! - da mulher - das mulheres! - no célebre O segundo sexo, mas... partindo do que se diz sobre a autora, das frases atribuídas a ela nas redes sociais e do que cada participante conhecia a respeito. Acredito que consegui realizar a proposta. 
Foram quatro encontros. No primeiro dia perguntei "quem é Beauvoir?". "Beauvoir" era um nome frequente no facebook associado aos feminismos, era tema de uma pergunta do ENEM ou era apenas um nome que aparecia no título de um dos cursos de férias do Mafalda. Aos poucos, Beauvoir ganhou corpo na nossa sala, não apenas pelo que eu ensinava nas minhas longas falas que estouravam o tempo que eu pensava que a aula duraria quando escrevi a proposta, mas a cada olhar, a cada dúvida, a cada contestação, a cada comentário, a cada reflexão e principalmente, a cada reação contra a situação de machismo que ainda persiste. Situação que transcendemos ali dentro. 
Minha proposta para terminar o curso era abrir espaço para que cada participante expressasse na linguagem que preferisse o olhar que adquiriu ao longo dos encontros. O resultado foi lindo: um jogo de palavras, um poema, da Midria, a lembrança da Graziela da letra de "Pais e filhos" da Legião Urbana, o desenho que a Gabriela fez da Beauvoir, o desenho da Zaira inspirado no curso, o texto sobre Beauvoir e O segundo sexo escrito pela Jessica e a palavra final da Julia à pergunta "Deve-se queimar Beauvoir?"! Decidimos que não. 
Com este texto, agradeço à Re, ao cursinho Mafalda, a funcionárias e funcionários da UNICID (espaço que abriga o Mafalda), às alunas e ao aluno incríveis que tornaram o curso possível e à Tati Schunck (a maior incentivadora da escrita e da divulgação da proposta), e reitero que desejo muito que "Deve-se queimar Beauvoir?" aconteça em outros espaços. 
Eu sou a Juliana Oliva, mas podem me chamar de Julie. Às vezes eu canso de tudo, mas Beauvoir e muitas pessoas lá fora me lembram de que vale a pena não sumir. Então apareço. 




Alunas que estavam presentes no último dia do curso.





o presente que ganhei da Gabriela






O poema da Midria:


Durante todo o tempo de nossa existência

Uma questão que deve se manter em eminência 

É a da prática iminente da ausência


Da ausência de justificativa

Da valorização transcendental de toda liberdade original

De compensar o peso de suas ações sobre a terra

E perceber que a vida é como um nau:fragia ou não

A partir do que se entende e se faz dela afinal


nossa foto feita pela Julia


o texto da Jessica

quinta-feira, 2 de junho de 2016

depois do post anterior, hoje esbarro neste trecho

"Désir d'écrire à Jacques. J'avais dit que non, il vaut mieux que non. J'y irais plus loin que peut-être il ne le voudrait lui-même. Il faut attendre sa lettre, qui ne viendra pas. Il y a quelque chose d'extraordinaire. Que je puisse concevoir si bien ma vie sans amour, et même la vivre. Que je ne sente aucun manque quand je n'aime pas, sinon par comparaison, et que j'aime ainsi d'un amour qui est une plénitude tellement incommensurable avec la fausse plénitude de l'autre." (BEAUVOIR, Simone. Cahiers de jeneusse 1926-1930. Paris: Gallimard, 2008, p. 532)

escrito por Simone de Beauvoir em 18 de novembro de 1928 no sexto caderno dos seus diários. Os grifos são meus. Alguém quer a tradução?

domingo, 9 de novembro de 2014

Como (des)construir uma mulher feia


 impressões sobre o filme Violette

Simone de Beauvoir se refere à Violette Leduc, nas cartas que escreve a Nelson Algren, como “a mulher feia”. Foi com alguma chateação que li e reli essas palavras e as reclamações de Beauvoir sobre as vezes em que jantava com Leduc. Aguentar a mulher feia parecia um fardo. Daí eu me lembrava de algumas parentes e vizinhas, que infelizmente estiveram muito presentes na minha formação – e que ainda insistem em invadir o meu espaço e da minha família –, que se dedicam a uma vida de aparências, que caluniam os outros, que criam intrigas nas vidas alheias enquanto se escondem atrás de sorrisos, cumprimentos cordiais e discursos em nome do amor. O fato de Beauvoir ter amizade com Leduc e rotulá-la como “a mulher feia” me remetia mais a esse tipo de pessoa – as parentes e as vizinhas – do que à mulher que desmantelou o Eterno feminino, tão nocivo às mulheres, e que chamava a atenção das mulheres para que elas se unissem. Mas nessas cartas já era também uma surpresa o encanto no qual ela se enredava em sua paixão por Algren.
Nunca fui atrás de outros escritos sobre Violette Leduc, nem dos escritos dela; em um livro sobre Beauvoir encontrei uma foto dela e não pude deixar de pensar em sua aparência, achei a mulher... feia; mas feia para mim, não universalmente feia. Mas eis que surge um filme sobre Violette Leduc: Violette (Violette, direção: Martin Provost, França, 2013), em que a saga de Leduc para tornar-se escritora e a amizade com Beauvoir são narradas com a importância que Leduc merece, com ênfase em sua escrita poética e com uma imagem forte e essencial da presença de Beauvoir na vida da escritora.
O filme mostra Violette já adulta, desde quando ela começa a arriscar as suas primeiras palavras pensando em escrever um livro - na época em que ela ainda roubava comida e negociava no mercado clandestino para sobreviver aos estragos da guerra – até o reconhecimento de sua obra que a permite caminhar com as suas próprias pernas e ter a própria vida em suas mãos de escritora.
Não poderia confrontar o que assisti com a vida de Leduc, já que esse filme é minha única referência a respeito dela. Nele, o que vi foi uma Violette Leduc inteligente, que mesmo sem ter estudado ou trabalhado, escrevia muito bem, mas que era ávida por algo que preenchesse ora o seu coração, ora o seu corpo. Ela buscava uma mulher, um homem, outra mulher, outro homem, alguém que a desejasse carnalmente mas se sentia, na maior parte do tempo, uma mulher feia que ninguém desejava. Ao mesmo tempo, ela queria atenção, talvez a atenção que não tivera da mãe, a quem ela acusa de nunca ter segurado a sua mão, mas somente a manga da sua blusa, para atravessar a rua quando criança. Leduc lamenta e se revolta o tempo todo pelo tempo que as coisas levam para acontecer para ela, ou por tudo o que deu errado em sua vida, e ela tem a si mesma como causa de todos esses estragos; quando ela se irrita com a mãe e esta lhe pergunta o que fizera a ela, Leduc responde: “Você me fez!”
Leduc parece buscar alguém mas desconfia de todos ao seu redor, outras vezes se apaixona e logo se decepciona por não ser correspondida da forma que espera. Ela chora em desespero como se todos fossem culpados pelos seus atos, e ela, culpada pelo que é, pelo que se tornou. Mas é nas relações intersubjetivas, mesmo que essas sejam tão espinhosas, que Leduc consegue alcançar alguma paz e satisfação em sua vida. Em Paris, na casa de um amigo do amigo que a magoara, ela encontra jogado o livro A Convidada de Simone de Beauvoir, ela leva o livro para casa, lê e decide entregar os seus escritos à Beauvoir, que os aceita, lê e passa a ajudar Leduc a publicá-los e a escrever mais. Mas Leduc se apaixona por Beauvoir, a cerca, cobra atenção, coleciona as suas fotos e a tem como objeto de desejo; atentando à essa situação, ficou bem mais fácil entender que Beauvoir carregava um fardo, já que Leduc não a deixava em paz e era um tanto insistente. Contudo, Beauvoir não a agrada, não a incentiva ao choro desenfreado, não a tem como coitada, não passa a mão em sua cabeça, mas sempre a impulsiona a escrever mais, e lhe mostra a importância desse trabalho. Beauvoir não deixa a amiga desistir, assinala a importância da busca por autonomia, e também a importância de contar sobre o aborto que fizera, sobre a sua sexualidade e sobre as suas experiências homoeróticas para ajudar outras mulheres. Beauvoir envia a Leduc, se passando pela Editora Gallimard, um pagamento mensal para que ela se sustente; além disso, Beauvoir também a acompanha no seu processo de recuperação em uma clínica quando ela adoece, levando as cartas e o reconhecimento da crítica nos jornais, que finalmente começam a surgir para o trabalho de Leduc. Assim, compreendo o quanto Beauvoir fez por Leduc, e se ela a chamava “a mulher feia” quando falava dela aos outros, ela de alguma forma preservava a sua identidade; para Beauvoir Violette Leduc era uma escritora, a tornar-se conhecida, com um trabalho importante por fazer pelas mulheres, e “a mulher feia” era a sua amiga carente que a idolatrava e cobrava demasiada atenção, que fugia desse trabalho e que se escondia em um ser-mulher-feia.
É preciso o reconhecimento de seus projetos, que lhe trazem sustento e a aprovação pelo olhar do outro, e quando ela se debruça sobre o trabalho e recebe esse reconhecimento, vemos uma mulher cuja aparência lhe pesa menos, que respeita a liberdade de Beauvoir na relação que elas mantém, que abre espaço para que as pessoas se aproximem dela e até mesmo a desejem, e que não dá tanta importância quando alguém a abandona.
Leduc encontra um lugar no campo para viver, e é nesse lugar que ela está apaziguada, sem asfixia, sem ser a filha bastarda, sem estragos (Asfixia, A filha bastarda e Estragos são títulos de seus livros), escrevendo no final do filme, enquanto Beauvoir está na televisão falando do percurso de Leduc e da contribuição que ela fez às mulheres que, naquela altura (década de '60), já tinham a permissão para abrir conta em banco, sem o marido (exemplo mostrado no filme).
Vejo no final do filme uma lente feminista, que exalta toda e qualquer emancipação da mulher, por meio do trabalho, do coletivo, da amizade entre duas mulheres, da literatura a partir de confissões íntimas que falam com e por muitas outras mulheres. Sozinha, Leduc existia enquanto mulher feia e assim insistia em mostrar-se ao mundo. Beauvoir a força a deixar de lado a má-fé da feiúra e a assumir a própria existência para além do seu corpo, a fazer de si o que não seja “a mulher feia”. A feiúra de Leduc não está em absoluto no seu rosto, mas está nos maus tratos às mulheres solteiras que recusam o casamento, às mulheres lésbicas, às mulheres que abortam; a feiúra de Leduc é construída pela sociedade que a convence a assumi-la, e é escutando Beauvoir que ela vira a mesa e desconstrói a sua feiúra ao expor a sua singularidade: a sua sexualidade, e a sua vontade de não casar e de não ser mãe, como escolhas de qualquer mulher, de muitas mulheres, que se tornam feias aos olhos da moral dominante. É nesse momento que o penteado, as roupas e a maquiagem de Leduc mudam; ao meu ver, ficam mais harmoniosos e mais bonitos, mas longe de tentar impor à mulher um modelo de aparência para que ela fique bonita, prefiro entender que ver uma Leduc bonita na tela corresponde a um tornar-se bonita – independente de como se dá esse tornar-se – que representa um tornar-se o que quiser, deixando assim de existir enquanto mulher feia. 

sábado, 5 de julho de 2014

Leio no momento:

A era dos extremos (Eric Hobsbawm) - pelos próximos anos, nem que seja uma página por dia.
O que eu amava (Siri Hustvedt) - indicação preciosa que me encanta no momento.

E as primeiras leituras como lição de casa de início de doutorado:
Os Mandarins (Simone de Beauvoir)
A mulher desiludida (Simone de Beauvoir)

Próximo da fila:
Quando o espiritual domina (Simone de Beauvoir)

sábado, 24 de agosto de 2013

refletir na sala de ginástica sobre o corpo

"Quando mediu sua fraqueza, boa parte da confiança que tinha em si mesma esvaiu-se. Foi o início de uma evolução que a levou a se feminilizar, a realizar-se como passividade, a aceitar a dependência. Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio. Basta ver a importância que os rapazes dão a seus músculos, para compreender que todo indivíduo julga o corpo como sua expressão objetiva.", escreve Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. Li este livro pela primeira vez em 2004 quando eu trabalhava como recepcionista em uma academia de ginástica. Na passagem da adolescência para a juventude, eu me tornava feminista, começava a ler Beauvoir, descobria que tornar-se financeiramente independente e escolher uma carreira não era fácil e me posicionava contra o culto ao corpo e à beleza ideal que... por acaso... ocorria no único local onde eu conseguira trabalho. Li O Segundo Sexo antes de estudar filosofia e antes de ter consciência e coragem (demorou, viu?) de afirmar "sou feminista". Hoje é desse livro que tiro o tema da minha pesquisa de mestrado. Sou mestranda em Beauvoir e frequento uma academia de ginástica, não mais como recepcionista mas como hummm... cliente? Aluna?
Nos últimos anos venho descobrindo (parece que não se descobre de cara, pelo menos no meu caso não foi assim) que tenho disfunção da articulação temporomandibular, também conhecida como "disfunção de a.t.m.", algo que pode ser tratado mas não curado. De minhas idas a especialistas, monitoramento de notícias na internet e conversas com outras pessoas que possuem o mesmo problema pouco concluí e muito descobri... informações como... que há pessoas que ficam surdas depois de algum tempo. Da minha experiência posso contar que as dores aumentam com os anos, dores na mandíbula, nos dentes, na nuca, nos ombros, nos olhos, nos ouvidos, nos braços, além dos zumbidos nos ouvidos e das tonturas. Má postura e ar condicionado me deixam pior, e fisioterapia, acupuntura, RPG, troca de colchão e travesseiro, natação, caminhada, mochila, tratamento ortodôntico, arnica e pomada cataflan trouxeram algum alívio. Relaxante muscular trouxe muito alívio, mas não estou interessada em comprimidos. A placa feita em acrílico para bruxismo trouxe muito, muito alívio. E junto com a placa, a ginástica, ou "academia", como se diz, trouxe muito, muito mais alívio... cerca de trinta dias sem dores fortes e vida quase normal.
 A disfunção da articulação temporomandibular é o primeiro motivo para eu ter colocado os pés na sala de ginástica. Cheguei lá no meio de pessoas animadas em roupas justas e da música energética em volume alto, e pensei, além de já ter informado as instrutoras: "estou aqui pela saúde"!
As dores diminuíram, e outras coisas mudaram. Comecei a refletir sobre o que eu fazia lá, o que eu fazia com o meu corpo lá, o que o meu corpo fazia lá, e descobri algumas coisas... Bem, sempre fui muito sedentária e sempre fugi das aulas de educação física, não tanto pelo esforço físico, mas muito mais pela socialização, e cresci rápido demais devido a uma doença. O que uma pessoa, uma mulher, que viu o seu corpo crescer rapidamente, mais rápido do que a sua capacidade de sustentá-lo e aceitá-lo pode aprender sobre este corpo em uma sala de ginástica? O que uma mulher, criada para tornar-se mulher, na delicadeza, sem luta, sem movimentos bruscos, que não está pensando na aparência pode aprender sobre o próprio corpo em uma sala de ginástica?
Posso dizer que nos últimos meses tenho aprendido que este corpo, que é meu (e é tão difícil deixar isto claro), não é só um objeto visto e legislado, nem só um receptáculo de dor, mas que é um instrumento, é um dos meios que tenho para me colocar no mundo. Na sala de ginástica aprendi a saber como algumas partes do meu corpo funcionam, o que elas podem suportar e o que elas podem mover. Aprendi a equilibrar este corpo ou a me equilibrar neste corpo, a ter confiança nele. E, por incrível que pareça, confiar no meu corpo tem me ajudado a confiar mais em mim mesma. É aí que começo a entender o que Beauvoir escreveu: "Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio." Embora os costumes machistas exaltem a força física masculina e a violência física como prova de virilidade, não podemos descartar a importância de desenvolver a força física, não me refiro a estes propósitos aos quais somos contrárias, mas penso em não descartar a força física como forma de ter algum domínio sobre o mundo, e sobre o próprio corpo, além de adquirir a capacidade de defender-se. Afinal, são os mesmos costumes machistas que exaltam exageradamente a força física masculina e pregam a delicadeza, e o não desenvolvimento da força física feminina. E daí seguem muitos outros obstáculos que conhecemos e dos quais Beauvoir fala em O Segundo Sexo. 
Meu propósito aqui era contar como curiosamente comecei a gostar de ginástica, dos aparelhos e dos pesos, depois de dar o meu próprio significado à sala de ginástica, e ainda compartilhar uma reflexão que para mim está só começando: o que refletir sobre este corpo?