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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Era esse o calor. Era exatamente esse o calor da xícara de chá de louro e do vermelho do batom que estavam entre os preparativos para o primeiro passo dado com as meias pretas. 
Por que as meias em Fevereiro? 
Ora, por que tanta festa e tanto calor em Fevereiro?
Não foi preciso responder a nenhuma dessas perguntas porque o calor, as meias, o chá, o sangue, as coincidências e o encontro e os seus desdobramentos fluíam muito bem. Tão bem, que era fácil lidar com os blocos de calor, alinhavados um a um pelos passos, agora livres das meias, na direção Oeste e de outra falsa e mágica realidade a cada encontro. E a cada encontro ficavam elástico, vestido, leite, touca; e voltavam fios de cabelo. 
Enquanto isso o clima abrandava - que bom, o frio! - até (de repente, quase simultanemante) a geada. Não foi longo o inverno, como poderia ter sido, foi até fácil juntar o leite derramado, dar novo significado ao vestido, devolver os fios de cabelo e calçar os 3/4 de agressividade do frio.
É certo que houve tentativas de apagão, que foram destruídos os mapas poéticos de construção, que parte das pernas congelou. E que, outra vez, quase simultaneamente, o calor voltava a incomodar. Mas de algum modo tudo se passou como se nada tivesse derretido ou sucumbido. As folhas, as flores, todos os blocos de novos trinta dias passaram sem trincar e sem que fosse preciso contar. Por que contar agora então?
Não contou nem um segundo. Nem mesmo contou com a possibilidade desse calor, exatamente esse calor, voltar arrastando as meias, a agressividade, os fios de cabelo, a raiva, o leite derramado, a manipulação da luz, as coincidências, a covardia.
Quantos anos cabem em um nunca mais? 
Quantos blocos de calor será preciso descosturar para passar?
Para que evaporem as lembranças tristes que doze meses depois desatam e desaguam sem avisar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

modificar ou modos de ficar

Pensei que fosse morrer.
E quando descobri que,
para eles,
o contrário do desrespeito é o sufoco,
pensei:
Não sei se grito ou se corro.
Corri.
E não morri.
Eu ri,
de alívio,
de deixar o vício em desperdício,
em dez perdas por cada sorriso
ou dez pedras por cada sumiço.
Me assumi
e me encontrei
em um, dois, três suspiros ritmados
e em olhos amigos.

quarta-feira, 26 de março de 2014

quinze de março de dois mil e quatorze

Gosto de ler certos livros em ambientes diferentes. Tenho um livro de ônibus, um livro que não suscite as minhas dores da A.T.M., um livro leve de carregar e também leve de ler, pois as pessoas falam muito nos ônibus e no metrô. Falam com colegas de trabalho sobre clientes, falam por poucos centavos com alguém que se encontra por aí, em qualquer parte, pendurado em mais um, ou em um dos seus telefones celular. Meu último livro de ônibus foi O escolhido foi você da querida Miranda July, presente que ganhei de uma amiga mais querida ainda, tão criativa e talentosa quanto Miranda. O nome original do livro é It chooses you; se "O escolhido foi você" soa tão interessante,"It chooses you" é mais instigante ainda para mim, coisas que não temos em português, algo que nos escolha... It. Nessa tarde encontrei a amiga que me presenteou com esse livro. Sentar num café com alguém de quem você gosta tanto e compartilhar os seus sentimentos em relação a um livro é uma das coisas mais gostosas do mundo, assim como descobrir que choramos com as mesmas páginas e reforçar o nosso laço pelo mundo que algum livro nos propõe, ou encontrar esse nosso laço nele...
Na volta para casa involuntariamente me aproximo demais de uma moça com um livro na mão, meu lenço roça no livro dela quase tornando-se um obstáculo entre os seus olhos e as letras impressas no livro. Puxo o lenço e revelo o nome do autor no topo da página: Eduardo Galeano. Essa é uma das raras vezes em que encontro alguém no metrô lendo um livro que eu leria. Penso em colocar o livro que tenho do Eduardo Galeano na minha pilha de "próximos livros a serem lidos". A moça lê em espanhol; com a dança das cadeiras do metrô, descubro que ela lê As veias abertas da América Latina, o livro que tenho e que penso em colocar na lista dos próximos. Me dá vontade de perguntar a ela o que acha do livro, quem sabe com a resposta dela esse livro consegue o melhor lugar na minha fila de livros a serem lidos. Minha edição é de bolso, leve, será que é leve de ser assimilada e meio aos ruídos de tantos anseios pessoais no transporte público? Desisto de pensar na possibilidade de me comunicar com a moça e penso na possibilidade de prolongar o sorriso que esbocei ao cara bonito sentado ao meu lado, em quem uma das partes da minha saia longa - não a azul turquesa, nem a vinho, mas a azul escura comprada no mesmo bazar - enroscou. Por um momento a minha saia com pequenos defeitos de fabricação me vinculou ao moço e à senhora sentada perto dele, foi um vínculo flexível, elástico, de vai e volta, que se rompeu quando recolhi a saia e me desculpei aos dois com um sorriso. O moço é absorvido pelo celular e só se move para me dar passagem e sorrir como um retorno ao meu sorriso de agradecimento pelo grande espaço cedido a mim e a uma das minhas três saias longas comprada no bazar de roupas com pequenos defeitos de uma fábrica do bairro onde moro, meu sorriso pode valer também como um agradecimento à sua aparência que involuntariamente me agrada de alguma maneira. Desço na estação onde pego o ônibus para casa, olho pela janela e ele olha para onde ele quer, não para mim. Aperto o passo com aquela sensação de quem acredita que apertar o passo significa chegar antes de o ônibus partir do terminal, como se eu soubesse a hora em que ele parte, como se eu pudesse vê-lo, como se ele saísse antes de eu chegar no ponto só por eu estar andando devagar. Tento desviar de alguém que anda a pequenos passos na minha frente. Lembro de não checar o meu celular naquele momento para não andar daquele jeito, mas quem está ali no meio do caminho que me leva até o meu ônibus é a moça que lê o livro do Eduardo Galeano, que não larga o livro nem enquanto caminha - realmente deve ser um livro interessante! Chego no terminal antes do ônibus, pensando no quanto é possível encher-se de coisas boas em uma sexta-feira de folga. Chego em casa, coloco o livro na pilha de "próximos".

terça-feira, 25 de março de 2014

Say what you mean. Mean what you say!

Desde pequena me fascina a ideia do que é uma lista telefônica ou uma lista de endereços, a possibilidade de buscar algo mais de alguém, o caminho ou o código numérico que leva até o lugar onde a pessoa está fixada ou até mesmo à sua voz... mesmo que se faça esse percurso por nada, só para saber. Sou curiosa mas não invasiva, tenho o endereço mas não vou à casa, tenho o telefone mas não converso, mas hoje pode-se brincar mais com essas peças e saber muito mais, revelando-se muito mesmo com essas tais redes ditas sociais. Lá fora há muitos olhares e convites para se perder em outros mundos, todo tipo de mundo e, dependendo do mundo, compensa esquecer o caminho temporariamente. Mas há muito tempo eu ando com um mapa e não tenho mais coragem para me perder... os caminhos mágicos eram tão pequenos perto dos rochedos que às vezes me impediam de mudar de rumo... Eis que um dia tentei um caminho novo com o mapa dobrado e guardado no bolso.
Um cara trabalhava em um evento para o qual fui convidada por um amigo especial que nós, o tal cara e eu, temos em comum; o cara também era convidado, mas como estava lá também trabalhando, então estava em evidência. Devido ao meu passado espinhoso naquele círculo onde nos encontrávamos, decidi conter o meu olhar que começava a se perder nos olhos, cabelos e magreza dele. Seu nome era Ordep Omrac Arierep, mas era conhecido como Ordep Bagarre, contudo chamemos a encrenca aqui somente de O.
Algum tempo depois, desolada pelos desencontros e pelos beijos que partem em aviões, e desorientada pelo vazio e pelo frio das férias de Julho, me joguei nos desencontros da internet que nos levam aos lugares que buscamos e... encontrei O... e ele quis me encontrar, iniciamos  o que se chama "amizade" na rede social. Minha essência ansiosa me determinou (momento de má-fé existencialista) a descobrir o máximo de O. antes que ele abrisse a boca para me dizer "oi", ou encostasse os dedos em um teclado para digitar "oi". Dentre algumas coisas que se encontra em redes sociais, descobri que possivelmente ele tivera, ou que ainda tinha, um relacionamento duradouro e sério com uma moça que não estava na rede. As fotos dos dois, posando de casalzinho, Um ao lado da Outra, estavam curiosamente na página de quem eu compreendera que seria a irmã dela, e não na página dele. Havia também uma cachorra que se confundia com a moça, uma cachorra em uma rede social, uma cachorra plantada em fotos esperando por uma mãe que nunca termina o trabalho, que nunca volta para casa, uma cachorra desempregada que espera por quem lhe afaga os pelos cacheados, uma cachorra que lambe o pai a cada gracinha que ele faz, uma cachorra amada, desejada com quem ele gostaria de passar mais tempo... curiosamente a cachorra tinha o meu apelido. 
A relação com O. por meio de teclados e telas preenche algumas das minhas tardes e um dia - uma manhã, uma tarde e uma noite - enquanto eu sentia que deveria estar mesmo era trabalhando no texto da qualificação da minha dissertação de mestrado... mas eu já começava a sentir o cheiro das amêndoas amargas e a ficar tão  atordoada  a ponto de esquecer que a cachorra era filha de uma mulher ou era a própria cachorra a mulher de O., o verdadeiro cachorro. Não acredito no quanto sou tola para sentir cheiro de amêndoas amargas aos 27 que ainda não eram 28, talvez fosse porque ele se parecia com o melhor beijo da minha vida, não sei se eram os cabelos cacheados e grisalhos, o amor por algumas canções ou a chegada de ambos neste mundo na década de 1970... eram esses tipos que me faziam me perder no cheiro das amêndoas amargas.  Era como se nos conhecêssemos há uma década, fazíamos listinhas de coisas gostosas, no maior estilo daquela peça que tanto me fez chorar... Trilhas sonoras de amor perdidas.
O encontro real se aproxima e em um momento de lucidez, quando estou menos enjoada do cheiro das amêndoas, pergunto sobre a cachorra e recebo como resposta "Estou em um momento de separação". Ora, uma separação tem vários momentos até passar de "separando" a "separado", em qual deles eles estariam? E onde eu estaria nisso? Começava a me lembrar de um encontro que tive com um cara que dormia no sofá da ex porque ele não tinha para onde ir com os seus móveis e porque ela precisava dos móveis dele no apartamento dela... lembro que passei mal em todos os encontros e preocupei o cara excessivamente a ponto de ele me chamar pelo diminutivo do meu apelido e assim fazer com que eu, me sentindo do tamanho de uma ervilha, realmente me cansasse de passar mal e de ser chamada de "-inha". 
As amêndoas são mais fortes e eu dou continuidade no processo do encontro, vestindo a má-fé existencialista de novo, penso que não sei em que momento está a separação e que por falta de informação posso continuar, mesmo agora lembrando do buraco em que fiquei por causa de um relacionamento com o cara que tinha ex-esposa, dois filhos, namorada e um comércio, by the way, amigo de O. que naquele momento eu fingia não conhecer, para não misturar tanto - ou mais - as coisas, you know
O encontro acontece no dia mais frio do ano, talvez para que eu já me acostumasse com o banho de água fria que viria depois. O. é extremamente atraente e ao pensar nisso lembro que o meu grande defeito é esconder de mim mesma alguns defeitos das pessoas que acho muito atraentes, que futilidade prender-me tanto às aparências! O papo é agradável, seu olhar em cima de mim e seu olhar em direção às coisas são interessantes, a companhia é boa. Contudo eu, com todos os meus problemas de bicho do mato, me encontro quase em pânico e mais do que isso, com uns sentimentos indefiníveis, indecifráveis e indizíveis porque o encontro se dava no dia de um dos mais esperados e melhores shows que já vi na vida. Era emoção de sobra que não vou contar aqui pois é mais bonita e mais significante do que isso tudo. 
Ao final dos ruídos e da presença que encheram muitos olhos de sorrisos naquele teatro, O. me ofereceu uma carona até o metrô, me lembrei que talvez eu tivesse lido algo que ele escreveu na rede social sobre não ter carro, mas aceitei. Quando nos aproximamos no carro, notei um adesivo de um símbolo cristão, adesivo de carros de católicos praticantes, e O. não parecia um católico praticante. Entro no carro tremendo de frio e de medo da vontade de beijá-lo e noto um terço no espelho e bichinhos de pelúcia, um em cada canto do carro, um ursinho e uma pequena girafa, além do cheiro fofo que só lembro de ter sentido dentro do carro de um colega gay. Estudo questões ligadas à construção do masculino e do feminino e penso que não há problema algum em homens gostarem de ursinhos e girafas de pelúcia, mas ao mesmo tempo penso que essas construções são tão fortes que é muito difícil encontrar alguém que as tenha rompido, enquanto é muito mais fácil encontrar um homem que se coloca em um relacionamento sério e sai por aí com o carro da parceira conhecendo outras mulheres sem mencionar o contrato do relacionamento sério, fiquei com essa segunda opção. Minha vontade era de perguntar: "De quem é este carro?", mas não fazia sentido cobrar algo de alguém que não havia me prometido nada. Por outro lado, também não faria sentido se ele estivesse fazendo o que pensei, se não tivesse me contado que tinha uma namorada ou uma esposa. Mas era só "e se". "E se", "e se", "e se", what if? Penso em perguntar sobre os bichos de pelúcia, ele entra no carro, olho para o terço e pergunto "você é católico?"! Ele se enrola, fala em "valores de família", diz que sim, diz que não etc e eu já não estou prestando atenção na resposta mas em como ele se enrola nela. Seguimos para o metrô e nos beijamos a cada semáforo vermelho. Droga! Ele beijava igual ao dito "melhor beijo da minha vida"!
Volto pra casa com um sorriso de amêndoas de orelha a orelha, achando mil coisas da vida, pensando em mil coisas sobre O.
No dia seguinte a conversa esfria. Penso que é coisa da minha cabeça, respiro fundo, analiso... mas não, não é... a conversa intensa dispersa, o laço se afrouxa... mas ele correspondeu o beijo, o que EU fiz de errado? Dois dias depois toco no assunto da conversa fria e sugiro um encontro daqui a outros dois dias, ele se ofende sentindo-se "cobrado" e eu me desculpo... eu me desculpo! Passam os dias, ele retoma a conversa fria que esquenta até demais. Ele continua sem tempo para o segundo encontro - diz que é o trabalho, ao meu ver ele não se doa muito ao trabalho - mas me convida para um evento seu. Pergunto novamente sobre o momento da separação e em uma resposta mais enrolada do que a do terço no carro ele sugere que sejamos amigos e me acusa de ser "apressada e ansiosa". Hoje é claro perceber que a conversa fria e essas acusações foram para me afastar de descobrir que ele era casado, hoje é fácil perceber que tudo começou depois que em uma pergunta deixei claro que sabia de quem era o carro. Mas coincidentemente a ansiedade e consequentemente a pressa são os meus pontos fracos, então tocar nesse assunto me destrói.... passo uma noite em claro chorando e me perguntando sobre o que fiz de errado dessa vez. Escrevo pra O. e ele me responde do modo mais tranquilo, amigo e paciente... afinal, o que aconteceria se eu ficasse com raiva dele?
O. coloca  a amizade em prática, uma vez por semana, por um mês e agora sempre me acusa por eu ter que voltar para a minha dissertação e não ter mais tempo para acompanhá-lo em exposições e apresentações de dança (torna-se o meu amigo mais chato!). Seus olhos e suas mãos buscam as batatas das minhas pernas agora, até que eu me acostumo à situação, me sinto confortável, tento beijá-lo e ele... fecha a boca! Ele demonstra desejo e fecha a boca, fecha a porta do armário onde ele esconde algo, uma mulher, uma cachorra, a cachorrada que ele faz com a mulher e eu, a cachorrada que ele disfarça posando com a cachorra no colo e os bichinhos de pelúcia no carro. Pra mim chega! Começo a me afastar nesse dia, com a sensação de ter vivido o relacionamento mais absurdo e mais idiota em menos de dois meses... ele ainda manda mensagens, algumas de voz bem bregas e engraçadas. Stalker que sou, não sossego e procuro por mais pistas, surge uma foto da tal moça com a cabeça da cachorra ao lado de O. em uma festa de Ano Novo, e mando feliz ano novo para ele, para a cachorra e para a moça (a chamo pelo nome que ele nunca me contou) e ele me manda um sorriso. Também analiso melhor a cachorra esperando pela moça no restaurante, vejo o nome do restaurante na foto, pesquiso e descubro que o local fica no mesmo bairro em que O. mora. Os movimentos virtuais da suposta irmã da moça-mãe da cachorra-esposa de O.-trabalhadora do restaurante... os movimentos da irmã de todas elas indicam que estou na pista certa. Retorno ao falido blog de O., ao último post, que é sobre alguém a quem ele dá qualquer nome, alguém com quem ele tem problemas de dinheiro, alguém que reclama de dinheiro, que veste a sua camiseta, alguma, algum feminino com quem ele vive e o atormenta. A cachorra reclama que ela trabalha demais, O. reclama no blog (e reclamara comigo) sobre a necessidade que as pessoas tem por aí de dinheiro, seu plano é viver com pouco... mas o que percebo é que ele vive com pouco dele e muito dos outros, sua vida custa caro. 
Encontro o telefone do restaurante, ligo e peço para falar com alguém que tem o nome nas legendas das fotos nas redes sociais mas que não sei se existe porque ela não existe nas redes sociais:
Alô. Gostaria de falar com a...
Ela vem ao telefone, fala comigo e eu inicio: 
Oi, sou amiga do seu marido, ele me recomendou o restaurante em que você trabalha. Tudo bem? Você é a, ... , esposa do Ordep, não?
Ela confirma e eu desligo, só posso ficar feliz por ainda ter um bom faro que perpassa o odor das amêndoas amargas.


Começou em Julho de 2013. Há algo no relato acima que nunca aconteceu. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

Da vida que muda como se troca de faixa ao escutar um disco. Da vida que muda como um final de uma temporada e o começo de outra em um seriado. (continuo péssima para títulos!)

I'm lost again
And I'm on the run
Looking for love
In a sad song

Torch - Soft Cell


Há um lugar em São Paulo que é uma espécie de "Central Perk" do seriado Friends pra mim... Na verdade é melhor do que o "Central Perk", devido ao tema e à proposta. E eu não tenho duas amigas e três amigos que formam um grupo inseparável que frequentem esse lugar comigo o tempo todo mas eu tenho boas amigas e bons amigos por aí, em círculos diferentes, e pessoas queridas que aparecem e reaparecem na minha vida o tempo todo. Trata-se de um lugar que conheci por acaso, na busca por aquilo que amo e não entendo e que sinto e não explico: música. Isso foi há muito tempo, há quase 10 anos. Em dez anos, novos sons, novas pessoas, novos abraços, novos amores, novas decepções, novas experiências e novos medos pelas coisas novas. Ontem estive lá em busca da música e das pessoas, hoje esse lugar é um novo espaço com uma nova proposta mas com as mesmas pessoas. Foi a primeira vez que fui sozinha até lá depois de cair em um dos buracos desse lugar... o lugar é adorável mas tem buracos e ovos no chão, como há em todos os lugares, por isso qualquer um(a) pode cair se não tomar cuidado onde pisa. Foi a primeira vez que apareci lá sozinha desde que saí do buraco "C", foi estranho, frio e havia pouco ar para respirar no início. "Não deveria ter vindo", pensei nos primeiros minutos. A sorte é que há um balão de oxigênio, imagens que distraem como em um delírio e lenços de papel no banheiro. Respiração no lugar, olhos enxutos e cabeça erguida, saí do banheiro e encontrei J., companhia de longa data nesse lugar e em outras caçadas por música. Sim! Eu deveria ter ido, os ovos no chão pareciam agora massagear os pés, eram ovos de borracha! Logo cumprimentei V., quem levava os bons sons para aquela noite, quem pouco conversou comigo desde que nos conhecemos mas que teve um papel tão especial na minha angústia no lançamento do livro de W., onde eu estava sozinha e incomodada pela presença de C., quando eu ainda tinha um pé dentro do buraco. Era preciso que nos reuníssemos para escutar os sons de V.! Por isso chamei seu vizinho A.,  que foi também meu companheiro de filosofia e ruídos, alguém que sabe encontrar beleza no som de uma britadeira... embora ontem só houvesse sons delicados no lugar, as britadeiras estavam apenas na minha cabeça. Éramos J., A. e eu em uma mesa com outros personagens com nomes e muita simpatia, um pouco longe de C., ator de uma novela mexicana onde atuei, por quem eu tenho alguma simpatia desajeitada que não encontrou direito o seu lugar. V. começou a tocar as suas músicas e a cantá-las sem microfone com uma surpreendente e bela voz, ele nos apresentou também músicas que não eram suas, músicas que gostamos: Oh! You Pretty things! E uma música de quem gostamos, de um amigo que está longe, era uma música de W., o do livro, sim, o do livro bonito, alguém com quem eu tive um passado e quase um outro passado que pode ser algo no futuro, um futuro passado, um passado futuro que coça e que me dá ansiedade porque não posso prever e que terei que ressignificar mas não sei como o farei porque... porque... porque ainda não chegou. Retomo a respiração. Anyway, V. elogiava W. antes de revelar seu nome e eu cutucava J. dizendo "É o W. É o W" e era. Talvez aquele tenha sido o momento mais surreal da noite, eram muitos dos meus passados, muitos futuros se construindo, muitas coisas se ajeitando e acordes tão bonitos que não sei fazer com letras que não sei escrever que traziam uma pausa para tanta ansiedade e tanto medo que me invadem nos últimos dias.  
Uma vez um amigo me disse que iria escrever um seriado sobre a minha vida amorosa. J. escreveu que ontem o seu dia parecia um final de temporada, não tenho a menor ideia de quais seriam os motivos dele para escrever isso, mas para mim parecia um começo de temporada. Contudo, a roteirista sou eu e agora cabe a mim decidir o que vou escrever.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Adeus Ano Novo

Eram cinco para celebrar a chegada de mais um ano, embora não compreendessem bem a celebração em que estavam envolvidos. Entendiam de outros tipos de celebrações... morar juntos, emprego novo, bolsas de estudo, trabalho de conclusão de curso, curas mas... ano novo? Dormir em um ano e acordar em outro? Ou, ficar acordado entre dois anos? De qualquer forma, o que fariam naquela noite? Decidiram reunir-se na casa de um deles com alguns sucos que o primeiro levou, um brigadeiro com cerejas que a segunda fez, salgadinhos comprados pela terceira e umas cervejas e baguetes recheadas que o quarto e a quinta providenciaram. 
Eis a comida e a espontaneidade da ceia feita de improviso, todos rodeavam a mesa e tinham o primeiro assunto da noite, que logo foi deixado de lado para que continuassem os assuntos que ficaram pela metade ao longo do ano, sabe como é, porque é preciso acordar cedo no dia seguinte, ou porque havia muito trabalho por fazer em casa, roupa para lavar, aquele casamento que tomou tanto tempo por causa de roupa, cabelo, presente... quando viram, a tal da virada do ano era uma ótima oportunidade para continuarem as suas conversas sobre a pessoa que alguém encontrou no aplicativo de paquera, as intrigas da família, o novo cargo no trabalho, o resultado dos exames de sangue, aquele show que arrebatara a todos, o namoro que terminou, os novos projetos, os filmes que já não estavam mais em cartaz... quantas conversas iniciadas em doze meses e que eram concluídas em poucas horas! Era como se todos os cafés, as festas de aniversário, as cervejas, os piqueniques, a hora do almoço e os breves encontros durassem o tanto que tinham que durar, sem interrupções! Sem interrupções, pelo menos por algumas horas, até os celulares começarem a fazer cócegas nos ouvidos ao emitirem aqueles sons de pequenos quadradinhos de metal caindo no chão, ruídos que só eram encobertos pelos estouros esparsos dos fogos lá fora, que não pareciam compor sons mas sim um movimento de martelar na cabeça.
- Que horas são? - exclamou a quinta, que não queria fazer uma pergunta pois tinha o celular nas mãos e as horas na sua cara naquele momento. 
- Dez e meia, e nem percebemos. Até que estamos passando bem, sem aderir à felicidade compulsória que todos perseguem lá fora. Ou que persegue a todos? - refletiu a segunda, que era encarada pelo quarto, na porta do quarto que havia em frente ao cômodo onde estavam reunidos. 
- Mas  - começa o quarto, provocando a segunda muito mais com o olhar do que com o que dizia não me diga que você que nos enchia tanto para comemorar a troca da folhinha, não gosta mais nem mesmo do momento das promessas para o ano novo, vai? Não me diga que morreu aquela sua curiosidade em relação ao que cada um de nós pretende fazer ao longo dos próximos doze meses? Hein?
Os quatro arregalavam os olhos e sentiam que a brincadeira tornara-se perigosa... se queriam estar acordados no "Ano Novo", deveriam saber que ouviriam os fogos, a contagem regressiva, veriam os vultos brancos, as sementes de romã e o prato de lentilhas dançando ao som do "Feliz Ano Nooooovo!!!" e então chegara a hora de falar no assunto:
- Não sei. - dizia a segunda, com lágrimas nos olhos - Não sei do que você está falando. Quero dizer, eu sei, eu sabia. Hoje não sei. Não sei quem eu sou em alguns momentos. Sei que tive um ano ótimo mas não sei qual é a minha posição no mundo na virada de um ano para o outro porque não entendo o que isso significa pra mim. Não entendo mesmo.
O quarto, confiante: 
- E precisa entender, querida? Não precisa. É só uma brincadeira. Ei, veja só como é simples. Minha resolução de ano novo é passar mais tempo com a minha família, que são vocês quatro! A família que escolhi, quem entende as minhas ideias frias, os meus comportamentos descontrolados e as minhas roupas furadas! E as minhas declarações mais lindas com o fundo musical feito pelos fogos...
Entre gargalhadas, a quinta respira fundo, se recompõe e com seriedade afirma: 
- Eu vou parar de fumar.
Boquiaberta, acompanhando com o olhar a saída repentina da quinta após a declaração repentina, a segunda, com a voz fraca coloca a sua promessa: 
- Eu só quero passar mais tempo com o meu cachorro que está comigo há dois anos, é só isso que tenho para resolver com urgência. Só.
E o terceiro, com ar envergonhado e as bochechas vermelhas como se estivesse em um daqueles momentos em que todos discutem política ou literatura, joga na mesa a sua resolução: 
- Definitivamente eu preciso ler mais!
Dirigindo-se ao terceiro, o primeiro diz: 
- Amigo, o tanto que você conseguir ler, eu tentarei me exercitar! Vou fazer academia!
Parecia que a brincadeira fora fácil, já estavam todos rindo aliviados, como se tirassem pesos das costas. E até a quinta já voltara para a roda, acalmada por um abraço do terceiro, que não tinha mais as bochechas vermelhas, com quem dividia um copo d'água. Estavam tão positivos que começaram a comparar as promessas para o ano novo com as conquistas do ano anterior. Todos concordavam que aquele fora um bom ano! O quarto tivera uma vida de pesquisador agradabilíssima, com bolsa de estudos e um trabalho elogiadíssimo, indicado para publicação. O primeiro estava muito feliz por morar junto com alguém, em uma "união estável", como ele costumava dizer por aí. A terceira estava saltitante com o novo emprego e todos os projetos e viagens que ela realizaria ali! A quinta não poderia ter tido um ano melhor, tinha encontrado a cura de uma doença que ela nem mencionava mais e o seu rosto irradiava serenidade. Enquanto a segunda comprara um apartamento, pertinho de uma estação de metrô e de um parque onde podia levar o seu cachorro passear! 
- Ora, do que estamos reclamando?
- Não deveríamos estar comemorando então?
- Tá. Mas e agora? Não entendo. Já não comemoramos cada um desses acontecimentos? O que tem a virada do ano com isso?
- Por acaso vocês lembram da última vez em que comemoraram o ano novo? Eu não.
- Não lembro. Mas lembro de algumas comemorações específicas.
Não importa quem colocava essas perguntas sobre o ano novo, isso não os identificava. O que os identificava eram os planos, o detalhe que acrescentavam àquela suposta ceia, as conquistas e as lembranças da época em que celebravam o ano novo. O quarto recordava o ano novo em que passara no motel com uma pessoa cheia de adendos e anexos em sua vida. A quinta quase se mordia de raiva ao lembrar que em uma virada de ano participara dos trotes e brincadeiras humilhantes para se integrar ao grupo. O primeiro sorria por saber que pelo menos ali ele não estava chorando em sua cama, nem enlouquecendo com o barulho dos fogos, como acontecera certa vez. A terceira se sentia leve, longe de outros amigos que ela considerava tão queridos quanto aqueles quatro, se sentia bem por estar longe dos outros pois sabia que esses outros realmente celebravam a data e ela sempre se sentia triste por estragar o ano deles. E a segunda recordava de muitas viradas, até mesmo das que ela comemorara, mas não quis compartilhar todas, somente aquela em que ela deixara a sua realidade com o ano velho e entrara num sonho de ano novo que viria a resultar num pesadelo, do qual ela só acordou quando já estava sozinha e com medo. 
De repente o vizinho gritou "Feliiiiz anooo nooovooooooo! Vaaaaai Corinthiaaaaans!" e o cinco se entreolharam. Não sabiam o que dizer, nem quem eram, nem o que estava acontecendo, ou sabiam que nada estava acontecendo. Tentaram continuar a conversa mas toda conversa morria, olhavam para o relógio. Era como se estivessem atrasados, como se tivessem algo mais importante para resolver e começavam a tentar concluir rapidamente todos os seus assuntos. 
A segunda sentia as lágrimas lutando para sair pelas venezianas dos seus olhos, sentia calor, via o cômodo girar, não conseguia se concentrar no que os
amigos tentavam dizer, parecia que a pele do seu corpo ia estourar e agora já sentia frio. Não aguentou, teve que dizer, na verdade precisava gritar. Subiu no sofá e gritou: 
- O meu cachorro!!!!! O meu cachorro! O meu cachorro! Eu não sei o nome dele!