Mostrando postagens com marcador corpo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador corpo. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Era esse o calor. Era exatamente esse o calor da xícara de chá de louro e do vermelho do batom que estavam entre os preparativos para o primeiro passo dado com as meias pretas. 
Por que as meias em Fevereiro? 
Ora, por que tanta festa e tanto calor em Fevereiro?
Não foi preciso responder a nenhuma dessas perguntas porque o calor, as meias, o chá, o sangue, as coincidências e o encontro e os seus desdobramentos fluíam muito bem. Tão bem, que era fácil lidar com os blocos de calor, alinhavados um a um pelos passos, agora livres das meias, na direção Oeste e de outra falsa e mágica realidade a cada encontro. E a cada encontro ficavam elástico, vestido, leite, touca; e voltavam fios de cabelo. 
Enquanto isso o clima abrandava - que bom, o frio! - até (de repente, quase simultanemante) a geada. Não foi longo o inverno, como poderia ter sido, foi até fácil juntar o leite derramado, dar novo significado ao vestido, devolver os fios de cabelo e calçar os 3/4 de agressividade do frio.
É certo que houve tentativas de apagão, que foram destruídos os mapas poéticos de construção, que parte das pernas congelou. E que, outra vez, quase simultaneamente, o calor voltava a incomodar. Mas de algum modo tudo se passou como se nada tivesse derretido ou sucumbido. As folhas, as flores, todos os blocos de novos trinta dias passaram sem trincar e sem que fosse preciso contar. Por que contar agora então?
Não contou nem um segundo. Nem mesmo contou com a possibilidade desse calor, exatamente esse calor, voltar arrastando as meias, a agressividade, os fios de cabelo, a raiva, o leite derramado, a manipulação da luz, as coincidências, a covardia.
Quantos anos cabem em um nunca mais? 
Quantos blocos de calor será preciso descosturar para passar?
Para que evaporem as lembranças tristes que doze meses depois desatam e desaguam sem avisar.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

cânfora por uma semana

Cânfora
aflora o frio e o jogo fosco
do desaforo,
fora todo encanto, ardil e esboço,
forma novo jogo, fundo
falso,
do poço.
Do peso no pescoço.
Canta
fora
do tom, de forma.
Deforma
camada
de som e sombra.
Prescrição:
Cheirar cânfora por 1 semana.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

escrito entre 09-10/04/2017

acordes e cordões de
cardamomo
morosidade
incômodo
amarram o meu estômago

escrito em 24/03/2017 - ruptura

eu não sei como começou
com sua cara - cara ou coroa -, sorte, cabelos ou não.
quatro - de repente quatro encontros,
coro, corro, choro,
corpo - encaixe. não como.
choque!
empecilho não!
mil vezes linda, mil bons dias e noites iludidas
pela tecnologia.
casa, comida, comidas e
roupa no armário.
no meio da noite não há mais sono nem sonho - STOP!

sementes ocas
piso em falso num terreno infértil.

Onde foi que eu errei?
Onde foi que eu feri sua existência poética?
Poeira e falta de métrica.
O que foi que eu não vi?

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

narcose


narcose, doçura.
delírio,
delirium tremens.
te extraño.
i miss you, sugar.
tremo de beijos,
degusto seu-meu medo.
medir o tempo, não merecemos.
não compreendo
essa relaciona-e-mente.
miragem, magia, milagre
não engrandecem.
te quero, coração,
sem tripa, sem trabalho.

são tantos agouros
que aturam os mosquitos
dentro da tua cabeça,
que tentam escapar pela tua nuca 
encucada e em coleira.
cria cores,
comete crimes
para salvar uma crise, um dia,
que nunca terminam.
too much work for something that never worked.

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

semana passada

existo nesta mão que toca o estilete e
desiste de 
trincar anda mais meus
trinta.
e um segundo,
como um segundo olhar, me salva.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

terça-feira, 7 de junho de 2016

você de novo
aqui
minha voz
(vai agora)
vacila
cilada sua
soa e sua,
me domina,
me ilumina,
ilusionista
sua língua
alisa
meu vício,
minha sina,
viral
vi roubar-lhe a luz
e a lucidez
dez vezes
desde sempre
minha vida
má, vil vida em vão
não
(vai agora)
não.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

without thinking, without breathing, without blinking

preocupações estranhas, ouvindo In utero do Nirvana e digitalizando 32Mb de páginas... escrevi isto:

repetition
paranoia
my brain will stop
69 is the number of crimes
inside my head
once there was pain
in bed 
I beg myself to, please, do not stop
do not mess it all again
poor rhymes
poor pills
such a baby
to face the thrill
deny and lie
scream and cry
until the kiss is ill
with the bloody valentine
that licks me
blessed fingers
and holy mouth
pleasures inside the box
shaking bones
and caressing the thorns
around the wrists
to watch the pulse cease
my favourite season
is the winter, of course
but nothing like spring
when stomach and liver bloom
spiders and butterflies
by the way, you again,
butter me under your sheets
whisper me 
our dirty rules
grab me at the feet
close to your ears
inside out in your arms
I feel like I disappear
No beer
Wait for wine
You put fire on my mind
I love when we are
face to between the thighs
Pardon
if my writing is too much high
It's just because I'm constantly
afraid to die.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

you and me, we are just our hips

dark and twisted like Meredith, 
I choose 
to twist and shout my hips on yours
and to break the glass of my memory.

a toast to my dirty grey shadow
moving deliciously slow
during the meeting of 
bodies and no soul.

a great lover
has just escaped from my stomach
to lick you from head
to toe.

would you give me the pleasure of
one more night
to let everything go?

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Hoje não é dois mil e seis

para  G.

Em cada ponta de uma década:
nós, 
desatando em desejo, trincando beijos.
Eu aos vinte, tu aos trinta - e três.
Num piscar dos meus olhos, os teus,
aos teus quarenta - e quase três.
Era dois mil e seis:
Teus dentes, meus lábios, pela primeira vez.
Inverno, vestígios frios, etéreos e efêmeros.
Tuas malas de viagem cheias de mistério.
Por uma década, teu silêncio quase eterno me visita.
"Hoje não é dois mil e seis.", repeti.
Repeti, repeti.
Te enterrei. Me enterrei.
Dois mil e dezesseis:
Passado presente, acaso pensado.
Tu, da minha mente à minha frente.
Logo tua língua, minha boca,
teus dentes, meus dentes - ah teus dentes! -,
tua boca, minha língua, outra vez.
Hoje não é dois mil e seis 
nem dois mil e dezesseis.
Desfaz-se a década na duração surda a medidas.
Verão, teu novo olhar e a minha melhor versão.
Tu vestido? Quero não!
Teu corpo esclarece a minha mente obscura.
Teus dentes desenham no meu seio 
a delícia e a dor do desapego.
Nosso entrelaçar delicadamente intenso confunde o tempo.
No meu corpo prego desespero pressentindo tua ausência.
Tu, entregue e despido aos meus trinta,
a mim, enquanto eu viva, 
outra vez, não sei.
Tu: desaparecido pela segunda vez.
Sedenta, tensa de saudade, sinto, sento e não espero.
Ainda te desejo.
Na sombra do teu silêncio,
em meus dedos,
procuro o que ficou de ti.
Não sei se te escrevo ou se me penteio,
se esmurro o teu tempo ou o meu espelho.
Desbota no meu seio a duração do nosso desejo.
Hoje é só dois mil e dezesseis a se desenrolar no tempo.


Poema escrito a partir da foto 2, fotografia de Alice Vasconcelos, do 2° Foto Sarau, e a partir de uma experiência bastante significativa sobre a qual eu não estava conseguindo escrever.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

Hoje não é dois mil e seis (esboço 2 - 05.02.2016 - poema escrito para o 2° Foto sarau - 28.02.2016*)

para G.

Dois dias a cada dez anos,
ou são dois dias, dez anos?
Nossas bocas trincando.
Eu aos vinte, tu aos trinta.
Eu aos trinta, tu aos quarenta.
Os mesmos ou sombras
Daqueles dois de dois mil e seis.
Quando seus dentes, meus lábios, no inverno, pela primeira vez.
Vestígios frios e etéreos
Teu silêncio quase eterno me visita.
Te enterrei. Me enterrei.
Hoje não é dois mil e seis.
Dois mil e dezesseis
Acaso pensado, encontro marcado.
Olhos devoram, abraços deslocam, dois segundos.
Descascam o tempo útil os dentes.
De repente, uma década ausente.
Não era dois mil e seis nem dois mil e dezesseis.
Verão, tua volta e a minha melhor versão.
Tu? Vestido, quero não.
Nas pontas dos teus dedos, meus fantasmas.
Teus dentes desenham no meio seio
A delícia e a dor do desapego,
Que não aprenderei desta vez.
A durar, meu mundo sob teu olhar
E teu corpo a me nortear.
Nem o tempo matemático nem meus versos desnorteados podem contar.
Tu, despido aos meus trinta, ou enquanto eu viva, outra vez, não sei.
Tu, desaparecido pela segunda vez.
Sedenta e tensa de saudade, sinto, sento e não espero.
Te desejo, no meu corpo prego desespero.
Na sombra do teu silêncio,
Não sei se te escrevo ou se me penteio,
Se esmurro o teu tempo ou o meu espelho.
Se esvaece no meu seio a duração do nosso desejo.
Hoje é só dois mil e dezesseis a se desenrolar no tempo.


*Postarei a versão final após o dia 28.02.

Hoje não é dois mil e seis - para G. (esboço 1 - 04.02.2016 - poema escrito para o 2° Foto sarau - 28.02.2016*)

Dois dias a cada dez anos
Nossas bocas trincando.
Quatro vezes em cada dez anos.
Nós, em uma década:
Eu, aos vinte, aos trinta
Tu, aos trinta, aos quarenta.
Não somos outros senão sombras
Daqueles dois de dois mil e seis.
Seus dentes, meus lábios, pela primeira vez.
Vestígios frios e etéreos
No teu silêncio quase eterno.
Te enterrei. Me enterrei.
Dois mil e dezesseis
O tempo útil dito década descascado pelos dentes.
Acaso pensado, encontro marcado.
Olhar, abraço, dois segundos e 
De novo as mordidas.
Dois dias, outra vez.
O verão, tu e a minha melhor versão.
Meus fantasmas nas pontas dos teus dedos.
Dentes que desenham no meio seio a delícia e a dor do desapego,
Que não aprenderei desta vez.
Vestido, não quero te ver.
Nem teu olhar para o meu mundo
Nem o meu mundo em teu corpo
Meus precários versos sabem descrever.
Tu, vestido ou entregue
Aos meus trinta outra vez, não sei.
Pela segunda vez, senhor do sumiço e do sabor intenso.
Tensa de saudade, sinto, sento e não espero.
Prego desespero no meu corpo e no meu desejo
Na sombra do teu silêncio.
Não sei se te escrevo ou se me penteio
Se grito entre os seus cachos grisalhos cortados,
Se esmurro o teu tempo ou o meu espelho.


*Postarei a versão final após o dia 28.02.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Trash french valentine

1.
Rumina o rompimento
Ruptura
Ansiedade obscura.
Canção de ninar:
"Dorme moça.
Amanhã não será mais pura.
Nem vai saber o que eu fazia
enquanto você dormia."
2.
Engole o seu destino
E o membro superior
Falo. Já ouviu falar de amor?
Me faz, porque eu te faço.
3.
Sexo a dois à dor.
De um lado dói?
Do outro, domina.
E não pára de ferir enquanto não termina.
Sexo a dois à dor.
De um lado a ferida,
Do outro, a folia.
Infinitamente nonstop.
Se é com dor, como chama?
Chamou a doença
E diluiu a dignidade alheia.

sábado, 4 de abril de 2015

aguada

Dividir águas com outrem
É quase um ultraje
Diante do medo de ser afogada.
Nem só em seu corpo
Em água
Sente-se tão à vontade.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Por causa da eletricidade no chuveiro, 
escorrem traços de água pelo meu corpo.
Por causa da eletricidade do encontro,
traço o seu rosto no meu corpo.
Vejo traços do seu rosto
nos traços de água,
em mim. 

a partir da letra de "I'll make you mine", da banda Rainer Maria

Can you name all the bones in my body? Can you make all the tones in my head? Que responsabilidade seria ganhar esta caixa quadrada, desajeitada e dura na qual me encontro. F R Á G I L. Este lado para cima. Que crueldade entregar esta caixa a algum par de mãos macias, aquecidas e de bom coração. Que complexo nomear os ossos no corpo de alguém, separar os que doem dos que não doem, catalogar, dobrar os ossos e guardar em sacos plástico. 

Tem dias em que sou um amontoado de músculos, nervos e articulações embaraçados, enroscados e dobrados dentro de um envelope jogado em cima de uma mesa feita de ossos. Os ossos caminham e carregam o envelope.

Can you name all the bones in my body? Os ossos, os músculos, os nervos, as articulações, todos anônimos, gastos e degenerados pelo pensamento tóxico e pela ilusão de que alguém um dia possa vir a nomeá-los. Can you make all the tones in my head? Parar essa música, esse disco de um lado só que recomeça a cada minuto, que range no encostar da agulha fria que o costura, deixando marcas de sangue por onde ela passa. I could tame all the tigers in your bloodstream. É a agulha ou são as garras do tigre que abrem o espaço por onde o sangue escapa da pele que o aprisiona e o impede de correr? Os tigres estão aqui fora ou debaixo da pele? Can you lay all my ghosts in their graves? Pode o tigre fantasma voltar a dormir, o sangue parar de jorrar, o barulho cessar e o corpo se reorganizar? O que vejo são só tigres e ossos transparentes e acinzentados em meio a uma fumaça branca. 

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Os meus ouvidos e o meu corpo inchados: zumbidos e picadas das abelhas rainhas que me prensam e me pressionam

Frases de ordem e de repressão veladas pelo clichê "Eu te amo", memórias que me sufocam a cada dia desde sempre.


Os zumbidos e as picadas:

Quando você crescer vai precisar de anestesia para tirar a sobrancelha. (Eu te amo) Alta desse jeito, você deveria ser modelo. (Eu te amo) Loira? Vai estragar o cabelo, o cabelo vai nascer ruim (sic) depois. (Eu te amo)  (Racista!) E agora tem mania de vestir roupa preta... (Eu te amo) Estampa de oncinha? Onde você pensa que vai? Conta a verdade, você se veste assim para chamar a atenção, né? (Eu te amo) Esse seu corte de cabelo parece corte de cabelo de retardada (sic). (Eu te amo) Pra que chorar? Linda desse jeito, eu aproveitaria a vida. (Eu te amo) Linda desse jeito e ninguém quer namorar com você? (Eu te amo) Por que você corta o cabelo? Homem fica louco com cabelo comprido! (Eu te amo) Não quer ter filho? Você fala isso agora, porque ainda não conheceu alguém (sic) ! (Eu te amo) Aliás, com essa anca, dá pra parir muito! (Eu te amo) Você só veste roupa preta e all star! (Eu te amo) Vai menina, abraça direito! Desde pequena não sabe abraçar, vou te emprestar o meu livro sobre a terapia do abraço (sic). (Eu te amo) E esse rock horroroso, isso não tá no seu sangue, desliga isso! (Eu te amo) Essas bandas de meninas gritando, logo vai trazer uma namorada, ao invés de um namorado. (Eu te amo) (Homofóbicx!) Feminista... isso logo passa, é fase. (Eu te amo) Ela dá muito mais importância para as coisas ruins do que para as coisas boas. (Eu te amo) "Complicada e perfeitinha", esquisita essa menina! (Eu te amo) Mãe, você precisa ver as fotos dos amigos dela da faculdade (Filosofia, tsc...)... quem é aquela gente com quem ela anda? (Eu te amo) Seu próximo aniversário vai ser comemorado na faculdade, né? (Eu te amo) Aquela x fez a sua cabeça! Você tá diferente! (Eu te amo) Esse cara tá se aproveitando de você. Certeza! (Eu te amo) Quando você tiver dinheiro, igual a x, compra um bom presente pra sua mãe como esse livro que eu ganhei, é o que ela precisa! (Eu te amo) Você e seu pai não dão alegrias para a sua mãe. (Eu te amo) Não acredito que você não vai usar salto no casamento, tem que usar, é assim! (Eu te amo) Seu pai é obrigado a te buscar, a te dar um carro, a pagar a sua faculdade, a sustentar você e a sua mãe. (Eu te amo) A sua mãe é uma coitada. (Eu te amo) "Primeira vez" tem que ter champagne, quando você tiver idade vai acontecer, depois você vem me contar como foi. (Eu te amo) Como não acredita em Jesus? No fundo você acredita, EU sei. (Eu te amo) Aborto? Isso não tá certo! (Eu te amo) Você é linda, e agora mestra, parabéns pelo seu esforço, mas isso aí é tudo teoria, você não viveu o tanto que eu vivi. (Eu te amo) Eu te amo e quero que você esteja comigo nesse momento especial, que música você gosta mesmo? (Eu te amo) Vamos conversar, mas com todo mundo junto com a gente! Isso aqui é união! (Eu te amo) Até que enfim entrou na faculdade, espera só pelo nosso trote. (Eu te amo) Até parece que tem problema de estômago, fala que tá enjoada toda hora mas do jeito que come... não parece. Se eu estivesse enjoada, não comeria tantos doces. Deve ficar enjoada por causa do pai, ele não deixa ela fazer nada. (Eu te amo) Deve ter sofrido muito com aquele francês, nem comenta nada sobre o fim do namoro. (Eu te amo) Você deveria estudar fora, igual ao x. (Eu te amo) Você deveria ser mais amorosa igual à y. (Eu te amo) Você quer ser feminista só pra não lavar a louça e não ajudar em casa. (Eu te amo) Você tá saindo com um francês? Ele toma banho? Toma? Como você sabe que ele toma banho? (Eu te amo) O que você e aquele cara, o que ele é mesmo... professor de Geografia, né, fazem quando estão sozinhos? (Eu te amo) Não quer casar... se ele te pedisse em casamento, você aceitaria. (Eu te amo) Seu cabelo é lindo porque é liso (sic) (Racista!), é uma judiação ficar cortando e tingindo. (Eu te amo) Você é muito branca, parece um palmito! (Eu te amo) É com esse moço que você tem que namorar, ele é de família! ... Não, com esse, esse vai à igreja! (Eu te amo) Você não quer namorar com esse moço bom por que vocês não tem a mesma visão política? O que é que tem? Eu sei lá qual é a visão política do meu marido... Aliás, não é melhor deixar esse estudo sobre a mulher de lado e continuar vivendo (Eu te amo) Você deveria ir à festa, vai estar cheia de homens bonitos, quem sabe você arruma um namorado...? (Eu te amo) Você deveria ir à festa, vai estar cheia de gays e você gosta de gente assim (sic), não é? (Eu te amo) Você tem dedo podre com homens. (Eu te amo) Você tem ciúmes delas. Nós amamos você também. Veeem aquiiiiii!!!! (Eu te amo) Você tem mágoa delas. (Eu te amo) Nossa, como você está bem vestida hoje! Agora se veste como professora! (Eu te amo) Que corpo você tem, hein? Que bunda! (Eu te amo) Você emagreceu. (Eu te amo) Você engordou. (Eu te amo) Mas você gosta mesmo de rock? (Eu te amo) Se você não se casar, vai se arrepender como eu me arrependi! Escuta o que tô te falando! (Eu te amo) Seus dentes ficaram lindos! Nossa, esse aparelho fica cheio de saliva, dá pra ver daqui, deve ser horrível usar isso. Você sai assim na rua? (Eu te amo) Você tem que fazer cursinho pra entrar na USP também. Cursinho não é caro, estudando em casa você vai dar o mesmo gasto com água, luz e comida! (Eu te amo) Você guarda dinheiro? Tem que guardar igual à y!!! (Eu te amo) Tá ficando igual ao pai. Credo! (Eu te amo) É sua obrigação nos aguentar! (Eu te amo) Na sua casa escondem toda comida, não oferecem nada para as visitas. (Eu te amo) Você é lerda. (Eu te amo) Você é lenta. (Eu te amo) Você é mole. (Eu te amo) Por que não tira esses óculos e passa a usar lentes? (Eu te amo) Eu nunca quis saber nada da sua vida. (Eu te amo) Confia-em-mim-(Eu te amo)-Eu-só-quero-o-seu-bem-(Eu te amo) -Aqui-ninguém-nunca-vai-te-trair-mas-os-seus-amigos-vão-(Eu te amo)-Você-não-gosta-de-nós,-né?-(Eu te amo) -Você-não-gosta-de-mim!-(Eu te amo) -Não-sei-por-que-não-confia-em-nós-(Eu te amo) -Mudou-tanto-(Eu te amo) -Anda,-menina,-diz-"Eu te amo"-de-volta!(Eu te amo) (NÃO!)


Em algum momento de Carta ao pai, Franz Kafka diz: "O amor muitas vezes tem o rosto da violência." Eu não discordo. 

sábado, 24 de agosto de 2013

refletir na sala de ginástica sobre o corpo

"Quando mediu sua fraqueza, boa parte da confiança que tinha em si mesma esvaiu-se. Foi o início de uma evolução que a levou a se feminilizar, a realizar-se como passividade, a aceitar a dependência. Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio. Basta ver a importância que os rapazes dão a seus músculos, para compreender que todo indivíduo julga o corpo como sua expressão objetiva.", escreve Simone de Beauvoir em O Segundo Sexo. Li este livro pela primeira vez em 2004 quando eu trabalhava como recepcionista em uma academia de ginástica. Na passagem da adolescência para a juventude, eu me tornava feminista, começava a ler Beauvoir, descobria que tornar-se financeiramente independente e escolher uma carreira não era fácil e me posicionava contra o culto ao corpo e à beleza ideal que... por acaso... ocorria no único local onde eu conseguira trabalho. Li O Segundo Sexo antes de estudar filosofia e antes de ter consciência e coragem (demorou, viu?) de afirmar "sou feminista". Hoje é desse livro que tiro o tema da minha pesquisa de mestrado. Sou mestranda em Beauvoir e frequento uma academia de ginástica, não mais como recepcionista mas como hummm... cliente? Aluna?
Nos últimos anos venho descobrindo (parece que não se descobre de cara, pelo menos no meu caso não foi assim) que tenho disfunção da articulação temporomandibular, também conhecida como "disfunção de a.t.m.", algo que pode ser tratado mas não curado. De minhas idas a especialistas, monitoramento de notícias na internet e conversas com outras pessoas que possuem o mesmo problema pouco concluí e muito descobri... informações como... que há pessoas que ficam surdas depois de algum tempo. Da minha experiência posso contar que as dores aumentam com os anos, dores na mandíbula, nos dentes, na nuca, nos ombros, nos olhos, nos ouvidos, nos braços, além dos zumbidos nos ouvidos e das tonturas. Má postura e ar condicionado me deixam pior, e fisioterapia, acupuntura, RPG, troca de colchão e travesseiro, natação, caminhada, mochila, tratamento ortodôntico, arnica e pomada cataflan trouxeram algum alívio. Relaxante muscular trouxe muito alívio, mas não estou interessada em comprimidos. A placa feita em acrílico para bruxismo trouxe muito, muito alívio. E junto com a placa, a ginástica, ou "academia", como se diz, trouxe muito, muito mais alívio... cerca de trinta dias sem dores fortes e vida quase normal.
 A disfunção da articulação temporomandibular é o primeiro motivo para eu ter colocado os pés na sala de ginástica. Cheguei lá no meio de pessoas animadas em roupas justas e da música energética em volume alto, e pensei, além de já ter informado as instrutoras: "estou aqui pela saúde"!
As dores diminuíram, e outras coisas mudaram. Comecei a refletir sobre o que eu fazia lá, o que eu fazia com o meu corpo lá, o que o meu corpo fazia lá, e descobri algumas coisas... Bem, sempre fui muito sedentária e sempre fugi das aulas de educação física, não tanto pelo esforço físico, mas muito mais pela socialização, e cresci rápido demais devido a uma doença. O que uma pessoa, uma mulher, que viu o seu corpo crescer rapidamente, mais rápido do que a sua capacidade de sustentá-lo e aceitá-lo pode aprender sobre este corpo em uma sala de ginástica? O que uma mulher, criada para tornar-se mulher, na delicadeza, sem luta, sem movimentos bruscos, que não está pensando na aparência pode aprender sobre o próprio corpo em uma sala de ginástica?
Posso dizer que nos últimos meses tenho aprendido que este corpo, que é meu (e é tão difícil deixar isto claro), não é só um objeto visto e legislado, nem só um receptáculo de dor, mas que é um instrumento, é um dos meios que tenho para me colocar no mundo. Na sala de ginástica aprendi a saber como algumas partes do meu corpo funcionam, o que elas podem suportar e o que elas podem mover. Aprendi a equilibrar este corpo ou a me equilibrar neste corpo, a ter confiança nele. E, por incrível que pareça, confiar no meu corpo tem me ajudado a confiar mais em mim mesma. É aí que começo a entender o que Beauvoir escreveu: "Não ter mais confiança no corpo é perder confiança em si próprio." Embora os costumes machistas exaltem a força física masculina e a violência física como prova de virilidade, não podemos descartar a importância de desenvolver a força física, não me refiro a estes propósitos aos quais somos contrárias, mas penso em não descartar a força física como forma de ter algum domínio sobre o mundo, e sobre o próprio corpo, além de adquirir a capacidade de defender-se. Afinal, são os mesmos costumes machistas que exaltam exageradamente a força física masculina e pregam a delicadeza, e o não desenvolvimento da força física feminina. E daí seguem muitos outros obstáculos que conhecemos e dos quais Beauvoir fala em O Segundo Sexo. 
Meu propósito aqui era contar como curiosamente comecei a gostar de ginástica, dos aparelhos e dos pesos, depois de dar o meu próprio significado à sala de ginástica, e ainda compartilhar uma reflexão que para mim está só começando: o que refletir sobre este corpo?