Curioso, nestes dias, beber sozinha num bar onde se escuta alguém cantando que convida todo mundo para sua festa, menos "você, que não presta". Eu sei que não é exatamente assim. Curioso escolher a cerveja uma vez compartilhada com alguém de beijos tão específicos e tão agradavelmente precisos que nunca mais deu notícia e sentir apenas o gosto da bebida e não daquela ou de qualquer outra ausência. E acima, uma tv calada e a cilada da imagem de homens que cozinham sob um título de um quadro que sugere que é a mulher quem manda. Curioso, nestes dias, depois do encontro no bar com as imagens da música, do beijo ausente e da tela, assistir a uma peça sobre três mulheres que partem. Partidas descritas pela palavra "preciso", não para evocar "precisar", mas "precisão", assinala a atriz.
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domingo, 10 de junho de 2018
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
Era esse o calor. Era exatamente esse o calor da xícara de chá de louro e do vermelho do batom que estavam entre os preparativos para o primeiro passo dado com as meias pretas.
Por que as meias em Fevereiro?
Ora, por que tanta festa e tanto calor em Fevereiro?
Não foi preciso responder a nenhuma dessas perguntas porque o calor, as meias, o chá, o sangue, as coincidências e o encontro e os seus desdobramentos fluíam muito bem. Tão bem, que era fácil lidar com os blocos de calor, alinhavados um a um pelos passos, agora livres das meias, na direção Oeste e de outra falsa e mágica realidade a cada encontro. E a cada encontro ficavam elástico, vestido, leite, touca; e voltavam fios de cabelo.
Enquanto isso o clima abrandava - que bom, o frio! - até (de repente, quase simultanemante) a geada. Não foi longo o inverno, como poderia ter sido, foi até fácil juntar o leite derramado, dar novo significado ao vestido, devolver os fios de cabelo e calçar os 3/4 de agressividade do frio.
É certo que houve tentativas de apagão, que foram destruídos os mapas poéticos de construção, que parte das pernas congelou. E que, outra vez, quase simultaneamente, o calor voltava a incomodar. Mas de algum modo tudo se passou como se nada tivesse derretido ou sucumbido. As folhas, as flores, todos os blocos de novos trinta dias passaram sem trincar e sem que fosse preciso contar. Por que contar agora então?
Não contou nem um segundo. Nem mesmo contou com a possibilidade desse calor, exatamente esse calor, voltar arrastando as meias, a agressividade, os fios de cabelo, a raiva, o leite derramado, a manipulação da luz, as coincidências, a covardia.
Quantos anos cabem em um nunca mais?
Quantos blocos de calor será preciso descosturar para passar?
Para que evaporem as lembranças tristes que doze meses depois desatam e desaguam sem avisar.
segunda-feira, 14 de agosto de 2017
modificar ou modos de ficar
Pensei que fosse morrer.
E quando descobri que,
para eles,
o contrário do desrespeito é o sufoco,
pensei:
Não sei se grito ou se corro.
Corri.
E não morri.
Eu ri,
de alívio,
de deixar o vício em desperdício,
em dez perdas por cada sorriso
ou dez pedras por cada sumiço.
Me assumi
e me encontrei
em um, dois, três suspiros ritmados
e em olhos amigos.
E quando descobri que,
para eles,
o contrário do desrespeito é o sufoco,
pensei:
Não sei se grito ou se corro.
Corri.
E não morri.
Eu ri,
de alívio,
de deixar o vício em desperdício,
em dez perdas por cada sorriso
ou dez pedras por cada sumiço.
Me assumi
e me encontrei
em um, dois, três suspiros ritmados
e em olhos amigos.
quarta-feira, 25 de maio de 2016
without thinking, without breathing, without blinking
preocupações estranhas, ouvindo In utero do Nirvana e digitalizando 32Mb de páginas... escrevi isto:
repetition
paranoia
my brain will stop
69 is the number of crimes
inside my head
once there was pain
in bed
I beg myself to, please, do not stop
do not mess it all again
poor rhymes
poor pills
such a baby
to face the thrill
deny and lie
scream and cry
until the kiss is ill
with the bloody valentine
that licks me
blessed fingers
and holy mouth
pleasures inside the box
shaking bones
and caressing the thorns
around the wrists
to watch the pulse cease
my favourite season
is the winter, of course
but nothing like spring
when stomach and liver bloom
spiders and butterflies
by the way, you again,
butter me under your sheets
whisper me
our dirty rules
grab me at the feet
close to your ears
inside out in your arms
I feel like I disappear
No beer
Wait for wine
You put fire on my mind
I love when we are
face to between the thighs
Pardon
if my writing is too much high
It's just because I'm constantly
afraid to die.
domingo, 28 de fevereiro de 2016
Hoje não é dois mil e seis
para G.
Em cada ponta de uma década:
nós,
desatando em desejo, trincando beijos.
Eu aos vinte, tu aos trinta - e três.
Num piscar dos meus olhos, os teus,
aos teus quarenta - e quase três.
Era dois mil e seis:
Teus dentes, meus lábios, pela primeira vez.
Inverno, vestígios frios, etéreos e efêmeros.
Tuas malas de viagem cheias de mistério.
Por uma década, teu silêncio quase eterno me visita.
"Hoje não é dois mil e seis.", repeti.
Repeti, repeti.
Te enterrei. Me enterrei.
Dois mil e dezesseis:
Passado presente, acaso pensado.
Tu, da minha mente à minha frente.
Logo tua língua, minha boca,
teus dentes, meus dentes - ah teus dentes! -,
tua boca, minha língua, outra vez.
Hoje não é dois mil e seis
nem dois mil e dezesseis.
Desfaz-se a década na duração surda a medidas.
Verão, teu novo olhar e a minha melhor versão.
Tu vestido? Quero não!
Teu corpo esclarece a minha mente obscura.
Teus dentes desenham no meu seio
a delícia e a dor do desapego.
Nosso entrelaçar delicadamente intenso confunde o tempo.
No meu corpo prego desespero pressentindo tua ausência.
Tu, entregue e despido aos meus trinta,
a mim, enquanto eu viva,
outra vez, não sei.
Tu: desaparecido pela segunda vez.
Sedenta, tensa de saudade, sinto, sento e não espero.
Ainda te desejo.
Na sombra do teu silêncio,
em meus dedos,
procuro o que ficou de ti.
Não sei se te escrevo ou se me penteio,
se esmurro o teu tempo ou o meu espelho.
Desbota no meu seio a duração do nosso desejo.
Hoje é só dois mil e dezesseis a se desenrolar no tempo.
Poema escrito a partir da foto 2, fotografia de Alice Vasconcelos, do 2° Foto Sarau, e a partir de uma experiência bastante significativa sobre a qual eu não estava conseguindo escrever.
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sábado, 27 de fevereiro de 2016
sábado, 20 de fevereiro de 2016
texto escrito no curso "Escrever, desenhar e bordar o erótico" no Sesc Belenzinho em 19.02.2016 durante a atividade em que escrevemos tudo o que vem à mente após uma colega ler em nosso ouvido um trecho de um conto de Hilda Hilst
Não mudei uma vírgula nem fiz nada para que o texto ficasse melhor. Esta foi a corrida entre a minha mente e a caneta no papel:
[Re]significar o que se repete, retomar. Amor? Sexo? Quem? Quando? Onde? Onde começa e onde termina esse frio e esse calor que eu sinto, que me domina, me limita, me tira do lugar, que faz com que eu não exista. É preciso um outro para dar forma a esse corpo? Como chama o que a gente criou naquela tarde? Não é amor, não é poder, não é foder, não é nada de ordem moral, é a vontade, um saco de medos e desejos, o seu sorriso, a única coisa que torna lindo o seu silêncio, os meus fantasmas dissolvidos no tempo, fora do pensamento. Corpo, ritmo, coração batendo, duração bergsoniana - por que não? -, vento no meu peito. Reinvento. Não consigo. Lindo? Amigo? Ilusão? Libido? Não sei o que sinto nem o que fazer com isso. Concentrar tudo no dito "pinto" não tem sentido. Entendam como quiser. Queiram o impossível, o indizível e eu continuo aqui entre trevas da minha formação, minha libido desviada e a minha mente criativa e desviada.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2016
"you show up and the world is wild!"
Rainer Maria, a banda, foi a inspiração para nomear este blog, não só o nome dele, mas também o endereço, fazem referência à banda. "A better version of me" é o nome de um álbum e "The awful truth of loving" o nome de uma música da banda. Há dez anos, escutando os álbuns A better version of me e Long knives drown, lendo O amor nos tempos do cólera de Gabriel García Márquez, eu encontrava pistas do que eu sentia. Se mantenho as referências até hoje é porque algo daquele tempo ainda está comigo - e é disso que falo quase o tempo todo neste blog - mesmo que não exatamente da mesma forma... ao longo dos anos, mais bonito, mais triste, mais complicado, mais pesado, mais vazio e, há dois dias, mais interessante, além de um pouco distante da trilha sonora de 2006. Não consigo ainda dizer o que é, nem escrever algo no mínimo bonito a respeito, mas tenho uma nova trilha sonora. Na falta das minhas palavras, tento encaixar os últimos dois dias nos últimos dez anos na imagem de uma playlist:
save me some time, I can't tell any more what's yours and what's mine
2. The awful truth of loving (Rainer Maria)
it's a dilemma of boys and girls for centuries
do I really know you? do you really need me?
first it feels right then you write a novel worrying about the awful truth of loving
3. Ears ring (Rainer Maria)
You need contact daily
Your conscience is failing
You need contact daily
And you already love her
4. Catastrophe (Rainer Maria)
But I've got a plan.
I'm gonna find you
at the end of the world
5. Bottle (Rainer Maria)
It's like a bottle to the head.
I'm seeing stars, I'm seeing red.
I'd taste your mouth in anyone's kiss.
Where do you end and I begin?
6. Life of leisure (Rainer Maria)
The future's going out of focus.
Our talk is cheap, but the phone bill is not.
And how can one word mean another?
And why am I staying up alone in the dark?
7. Southpaw (Rainer Maria)
Cracked knuckles, and my fists are bandaged up for the fight.
Am I ready?There's the bell.
How many rounds can I go?
And how can I soften the blows?
Can I avoid them altogether?
But my heart isn't in this.
I'm supposed to be a seasoned fighter.
It feels like my first hit.(and it hurts like...)
I didn't see this coming anyway.(yeah, it hurts like hell)
But my heart isn't in this.
I'm supposed to be a seasoned fighter.
It feels like my first hit.(and it hurts like...)
I didn't see this coming anyway.(yeah, it hurts like hell)
So don't tell the crowd,
but I'm gonna let my guard down.
8. Make you mine (Rainer Maria)
Can you name all the bones in my body?
Can you make all the tones in my head?
[...]
Can you lay all my ghosts in their graves?
9. This is love (P.J. Harvey)
I can't believe life's so complex
When I just wanna' sit here and watch you undress
This is love that I'm feeling
10. Untitled and unsung (Belly)
I want you soft in the middle. I see a strange and furious face. I know your heart. I want your pearly hand in my hair. We make a strange and furious pair. I want you locked in the middle. I know your heart. I know your heart. It's just like mine was. So you wanna know why I can't sleep. You wanna know why I can't sleep. You wanna know why I can't sleep. Unless I've got a belly full of wine. You show up in time for a bad time. Mmm, 'less I've got a belly full of wine. You show up and the world is wild. I want your pearly little hand in my hair. We make a strange and furious pair. I want you pearly on the inside. I know your heart. I know your heart. It's just like mine was. So you wanna know why I can't sleep at night. You wanna know why I can't sleep at night. You wanna know why I can't sleep. Unless I've got a belly full of wine. You show up in time for a bad time. Mmm, 'less I've got a belly full of wine. You show up in tails for a bad time. Mmm, 'less I've got my belly full of wine. I'm drunk and the world is wild. You got it. Heaven in your hand,You got it. You got it, Heaven in your hand.
11. ?
quarta-feira, 4 de junho de 2014
Na delicadeza do caos
quase uma resenha do show do Yo la tengo de 03.06.2014 no Cine Joia
Não escondo a minha dificuldade em classificar e categorizar qualquer coisa, até mesmo e principalmente as que me fazem sorrir. "Como é esta banda?", "Que som fazem?", "Com quem se parecem?" são perguntas que soam quase como ameaça para mim; talvez isso tenha explicação, talvez seja decorrente da época em que certo alguém por quem eu estava encantada me deixava (ou que eu deixava que me deixasse) do tamanho de uma ervilha quando falava sobre música, para ele eu era a referência de ignorância, se eu conhecia uma banda, então qualquer outra pessoa deveria conhecer, "Até ela conhece! Como você não conhece?", apontando para mim, ele dizia à pessoa que não sabia do que ele estava falando. Talvez isso não devesse me atingir de tal forma, afinal, saber tudo de música era (e é) o trabalho dele, e o meu negócio sempre foi outro, talvez era a nossa relação que me deixava do tamanho de uma ervilha, não a minha ignorância musical. Tal ignorância permanece até hoje, já tentei aprender a tocar instrumentos, li tantas resenhas de álbuns, convivi e convivo com tanta gente que explica o que escutamos... e nada. Eu não compreendo música, eu sinto, e de alguma forma isso me basta e preenche com muita alegria grande parte da minha existência. Algumas bandas do meu coração até se organizam no meu cérebro de forma harmoniosa, sei os nomes das pessoas e o que elas tocam na banda, sei os nomes das minhas músicas preferidas e sei localizar essas - e outras! - músicas em seus respectivos álbuns, esse não é o caso do Yo la tengo, banda que de alguma forma me arrebata e que ao mesmo tempo me dá um nó no cérebro. Mas esse papo de "pobre de mim, eu não sei falar bonito sobre música" deve cansar qualquer leitor(a), então indo direto ao assunto, que pode ser colocado em menos palavras do que a introdução que fiz ao mesmo, Yo la tengo é uma banda linda, "Yo la tengo é lindo" foi a frase que enviei para algumas pessoas hoje de manhã. Ontem fui ao show (há um belo trecho do show aqui: https://www.youtube.com/watch?v=Ujbc4wDLeuY ) dessa banda norte-americana que existe desde algum momento da década de 1980 mas que eu conheço há apenas dez anos e nesses dez anos foi uma lenta apreensão do som feito pelo trio. Foi devagar que a música de Ira Kaplan, Georgia Hubley e James McNew me conquistou, mas o mais interessante é que nessa lenta aproximação nunca deixei o Yo la tengo de lado, algo me fazia ficar com as canções à mão, por perto, até que quando eu soube da vinda do trio para o Brasil, não tive dúvida que eu iria ao show e que, sem saber o motivo, seria incrível. Eu já ouvira repetidas vezes a fofíssima "Sugarcube" e "From a motel 6", e tinha como preferida "We're an American band", era tudo que eu podia dizer do Yo la tengo quando decidi que veria a banda ao vivo, depois descobri a incrível "Tom Courteney", entre outras músicas que ainda não se organizam e mal são identificadas na minha vida, mas que já fazem nela uma tremenda diferença. Deixando de lado a minha habilidade (ou falta de) em guardar nomes de músicas e identificá-las, ontem foi lindo, como já disse. Não compreendo como ali havia gente conversando enquanto eu tentava me entregar a sentir o caos e a delicadeza daquela apresentação. Eram movimentos suaves capazes de provocar os ruídos mais altos e intensos, barulho suficiente para preencher uma sala com pensamentos confusos. Peso e leveza se enfrentavam e se abraçavam. Palavras bonitas eram sussurradas sob um barulho que parecia indicar que algo desabava em algum lugar exterior ao sussurro, ou lá dentro de quem sussurrava. Houve momentos em que fechei os olhos, momentos em que dancei, momentos em que balancei a cabeça, momentos em que não percebi o tempo passar (milagre!), momentos em que desejei que as pessoas calassem a boca e compreendessem que silêncio também faz parte da música. Hipnotizante, arrebatador, gracioso. Entre ruídos e distorções mais uma vez encontrei o meu calmante. Só sei explicar música desse jeito.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
Os meus ouvidos e o meu corpo inchados: zumbidos e picadas das abelhas rainhas que me prensam e me pressionam
Frases de ordem e de repressão veladas pelo clichê "Eu te amo", memórias que me sufocam a cada dia desde sempre.
Os zumbidos e as picadas:
Quando você crescer vai precisar de anestesia para tirar a sobrancelha. (Eu te amo) Alta desse jeito, você deveria ser modelo. (Eu te amo) Loira? Vai estragar o cabelo, o cabelo vai nascer ruim (sic) depois. (Eu te amo) (Racista!) E agora tem mania de vestir roupa preta... (Eu te amo) Estampa de oncinha? Onde você pensa que vai? Conta a verdade, você se veste assim para chamar a atenção, né? (Eu te amo) Esse seu corte de cabelo parece corte de cabelo de retardada (sic). (Eu te amo) Pra que chorar? Linda desse jeito, eu aproveitaria a vida. (Eu te amo) Linda desse jeito e ninguém quer namorar com você? (Eu te amo) Por que você corta o cabelo? Homem fica louco com cabelo comprido! (Eu te amo) Não quer ter filho? Você fala isso agora, porque ainda não conheceu alguém (sic) ! (Eu te amo) Aliás, com essa anca, dá pra parir muito! (Eu te amo) Você só veste roupa preta e all star! (Eu te amo) Vai menina, abraça direito! Desde pequena não sabe abraçar, vou te emprestar o meu livro sobre a terapia do abraço (sic). (Eu te amo) E esse rock horroroso, isso não tá no seu sangue, desliga isso! (Eu te amo) Essas bandas de meninas gritando, logo vai trazer uma namorada, ao invés de um namorado. (Eu te amo) (Homofóbicx!) Feminista... isso logo passa, é fase. (Eu te amo) Ela dá muito mais importância para as coisas ruins do que para as coisas boas. (Eu te amo) "Complicada e perfeitinha", esquisita essa menina! (Eu te amo) Mãe, você precisa ver as fotos dos amigos dela da faculdade (Filosofia, tsc...)... quem é aquela gente com quem ela anda? (Eu te amo) Seu próximo aniversário vai ser comemorado na faculdade, né? (Eu te amo) Aquela x fez a sua cabeça! Você tá diferente! (Eu te amo) Esse cara tá se aproveitando de você. Certeza! (Eu te amo) Quando você tiver dinheiro, igual a x, compra um bom presente pra sua mãe como esse livro que eu ganhei, é o que ela precisa! (Eu te amo) Você e seu pai não dão alegrias para a sua mãe. (Eu te amo) Não acredito que você não vai usar salto no casamento, tem que usar, é assim! (Eu te amo) Seu pai é obrigado a te buscar, a te dar um carro, a pagar a sua faculdade, a sustentar você e a sua mãe. (Eu te amo) A sua mãe é uma coitada. (Eu te amo) "Primeira vez" tem que ter champagne, quando você tiver idade vai acontecer, depois você vem me contar como foi. (Eu te amo) Como não acredita em Jesus? No fundo você acredita, EU sei. (Eu te amo) Aborto? Isso não tá certo! (Eu te amo) Você é linda, e agora mestra, parabéns pelo seu esforço, mas isso aí é tudo teoria, você não viveu o tanto que eu vivi. (Eu te amo) Eu te amo e quero que você esteja comigo nesse momento especial, que música você gosta mesmo? (Eu te amo) Vamos conversar, mas com todo mundo junto com a gente! Isso aqui é união! (Eu te amo) Até que enfim entrou na faculdade, espera só pelo nosso trote. (Eu te amo) Até parece que tem problema de estômago, fala que tá enjoada toda hora mas do jeito que come... não parece. Se eu estivesse enjoada, não comeria tantos doces. Deve ficar enjoada por causa do pai, ele não deixa ela fazer nada. (Eu te amo) Deve ter sofrido muito com aquele francês, nem comenta nada sobre o fim do namoro. (Eu te amo) Você deveria estudar fora, igual ao x. (Eu te amo) Você deveria ser mais amorosa igual à y. (Eu te amo) Você quer ser feminista só pra não lavar a louça e não ajudar em casa. (Eu te amo) Você tá saindo com um francês? Ele toma banho? Toma? Como você sabe que ele toma banho? (Eu te amo) O que você e aquele cara, o que ele é mesmo... professor de Geografia, né, fazem quando estão sozinhos? (Eu te amo) Não quer casar... se ele te pedisse em casamento, você aceitaria. (Eu te amo) Seu cabelo é lindo porque é liso (sic) (Racista!), é uma judiação ficar cortando e tingindo. (Eu te amo) Você é muito branca, parece um palmito! (Eu te amo) É com esse moço que você tem que namorar, ele é de família! ... Não, com esse, esse vai à igreja! (Eu te amo) Você não quer namorar com esse moço bom por que vocês não tem a mesma visão política? O que é que tem? Eu sei lá qual é a visão política do meu marido... Aliás, não é melhor deixar esse estudo sobre a mulher de lado e continuar vivendo (Eu te amo) Você deveria ir à festa, vai estar cheia de homens bonitos, quem sabe você arruma um namorado...? (Eu te amo) Você deveria ir à festa, vai estar cheia de gays e você gosta de gente assim (sic), não é? (Eu te amo) Você tem dedo podre com homens. (Eu te amo) Você tem ciúmes delas. Nós amamos você também. Veeem aquiiiiii!!!! (Eu te amo) Você tem mágoa delas. (Eu te amo) Nossa, como você está bem vestida hoje! Agora se veste como professora! (Eu te amo) Que corpo você tem, hein? Que bunda! (Eu te amo) Você emagreceu. (Eu te amo) Você engordou. (Eu te amo) Mas você gosta mesmo de rock? (Eu te amo) Se você não se casar, vai se arrepender como eu me arrependi! Escuta o que tô te falando! (Eu te amo) Seus dentes ficaram lindos! Nossa, esse aparelho fica cheio de saliva, dá pra ver daqui, deve ser horrível usar isso. Você sai assim na rua? (Eu te amo) Você tem que fazer cursinho pra entrar na USP também. Cursinho não é caro, estudando em casa você vai dar o mesmo gasto com água, luz e comida! (Eu te amo) Você guarda dinheiro? Tem que guardar igual à y!!! (Eu te amo) Tá ficando igual ao pai. Credo! (Eu te amo) É sua obrigação nos aguentar! (Eu te amo) Na sua casa escondem toda comida, não oferecem nada para as visitas. (Eu te amo) Você é lerda. (Eu te amo) Você é lenta. (Eu te amo) Você é mole. (Eu te amo) Por que não tira esses óculos e passa a usar lentes? (Eu te amo) Eu nunca quis saber nada da sua vida. (Eu te amo) Confia-em-mim-(Eu te amo)-Eu-só-quero-o-seu-bem-(Eu te amo) -Aqui-ninguém-nunca-vai-te-trair-mas-os-seus-amigos-vão-(Eu te amo)-Você-não-gosta-de-nós,-né?-(Eu te amo) -Você-não-gosta-de-mim!-(Eu te amo) -Não-sei-por-que-não-confia-em-nós-(Eu te amo) -Mudou-tanto-(Eu te amo) -Anda,-menina,-diz-"Eu te amo"-de-volta!(Eu te amo) (NÃO!)
Em algum momento de Carta ao pai, Franz Kafka diz: "O amor muitas vezes tem o rosto da violência." Eu não discordo.
quarta-feira, 26 de março de 2014
anexo ao que chamei "Siri Hustvedt, eu e as nossas 'falhas de caráter' "
Coisa mais estranha é querer acrescentar algo a um post em outro post ... pensei tanto nisso, comentei que o faria e comentei que não o faria mas cá estou eu o fazendo:
Daquela lista...
Não consegui aprender aprender a nadar porque não conceber a possibilidade de ficar na posição horizontal na água e não afundar... sempre afundo, e se alguém me segura deitada na água sinto pânico. Nos primeiros dias de treino na academia de ginástica, atividade física que os médicos me recomendaram para eu gastar energia, aliviar ansiedade e tensão, eu sentia vontade de chorar, e às vezes chorava, levantando os pesos e esticando o corpo nas aulas de alongamento; não chorava de dor, mas pela sensação de estar tirando de mim algo muito pesado. Não consigo usar lápis de olho, fazer aquele risco preto nas pálpebras ou embaixo do olho (acho que é assim que fazem não), consigo menos ainda usar o tal do "curvex" que olho e sinto como se fosse uma tesoura ameaçando os meus olhos.
Essa lista com certeza não termina por aqui, nem daqui a sessenta anos.
sábado, 8 de março de 2014
Siri Hustvedt, eu e as nossas "falhas de caráter"
"[...] havia uma coisa chamada sinestesia reflexiva, quando alguém sente o toque ou mesmo a dor alheia só de olhar para a outra pessoa. De todo modo, essa forma de sinestesia só foi descrita e definida em 2005. Quando eu era criança, minha mãe costumava me dizer que eu era 'sensível demais para este mundo'. Ela não falava por mal, mas por muitos anos considerei minha hipersensibilidade uma falha de caráter. Desde que me lembro, sinto os toques, batidas e choques bem como o estado de espírito de outras pessoas, quase como se acontecessem comigo. Consigo distinguir entre um toque real e o que sinto quando vejo alguém ser tocado, no entanto a sensação existe, mesmo assim. Sinto como se fosse a minha a dor de alguém que torce o tornozelo. Observar a mãe que acaricia a filha me dá o prazer físico que eu sentiria ao fazer o mesmo gesto. Se alguém se machuca num filme, fecho os olhos ou saio da sala. Quando menina, passei metade de um episódio de Lassie no banheiro. Filmes violentos ou de terror são intoleráveis, pois sinto a tortura das vítimas. Olhar, ou só pensar num cubo de gelo me dá arrepios. Minha empatia é extrema e, para ser franca, por vezes sinto com exagero e preciso me proteger da superexposição a estímulos que me tornariam um pilar de carne dolorida. Tudo isso, ao que se sabe, caracteriza quem sofre de sinestesia reflexiva.
Também reajo com intensidade a cores e luzes. Por exemplo, durante uma viagem à Islândia eu viajava num ônibus, olhando pela janela a paisagem desprovida de árvores, quando passamos por um lago de cor inusitada. Sua água era azul-esverdeada, clara, glacial. A cor me agitou como se fosse um choque. Percorreu meu corpo inteiro, e me vi resistindo a ela, fechando os olhos, agitando as mãos num esforço para expelir aquele matiz insuportável do corpo. [...] Diversos tipos de luz geram emoções distintas em mim: o sol fraco da tarde entrando através da janela, o brilho irritante das luzes da rua, a crueldade das lâmpadas fluorescentes. [...]" (Siri Hustvedt, A mulher trêmula ou Uma história dos meus nervos, p.112-113)
Foi por causa do trecho acima, passagem do livro de Siri Hustvedt em que ela nos conta sobre a sua busca pela compreensão e pela causa de seus tremores ao falar em público a partir de um determinado momento da sua vida, que eu decidi escrever sobre a minha sensibilidade. Assim como a mãe de Hustvedt, a minha mãe também me considerava sensível demais para este mundo quando eu era criança, ela dizia algo quase com as mesmas palavras usadas pela mãe da autora, e assim como Hustvedt, também sempre considerei o meu excesso de sensibilidade uma falha de caráter; aliás, quando li o trecho que cito acima, "falha de caráter" soou como uma expressão mágica para mim e traduziu o que eu sempre senti, antes sem saber nomear, em relação à minha postura no mundo e em relação às pessoas exageradamente determinada por uma gritaria de sentimentos quase inexplicáveis. Contudo sempre pensei que por ser filha única e ter tido alguns problemas de saúde na infância e ter tido mãe e pai superprotetores, esses sentimentos poderiam ser resultados da situação na qual se deu a minha formação, o que definem por aí como "frescuras". Nunca pensei em fazer uma lista do que sinto em exagero, mas sinto cada vez mais vontade de cruzar as minhas sensações com as de Hustvedt num texto toda vez que releio o trecho acima. Não sei por onde começar, nem como classificar os itens dessa lista, então posso começar dizendo que quando exposta a determinadas situações sinto náuseas terríveis intercaladas de falta de ar, o que considero sintoma de uma ansiedade absurda. Talvez eu seja apenas uma pessoa ansiosa e insegura que acumula muitas coisas e faz algum drama, drama queen, "fresca"... Mas há outras coisas: Choro em quase todos, TODOS os episódios de Grey's anatomy, todos os pelos dos meus braços arrepiam em shows de bandas cujas letras dão voz ao que eu tenho entalado no peito, houve uma época em que eu sentia dores de cabeça com frequência no final da tarde, passar por uma loja de lustres à noite é uma agressão, a luz baixa de bar me deixa um pouco impaciente. Só de olhar para uma placa de isopor ou unhas grandes perto de uma lousa tenho vontade de me contorcer, aliás unhas grandes me desesperam, e se são as minhas unhas que estão grandes, sinto os dedos sujos e pesados o tempo todo. Ver duas pessoas se beijando às vezes me traz o toque dos lábios de alguns beijos que experienciei e que às vezes me dão saudade. Quando levo uma pancada leve, como quando a catraca do ônibus ou do metrô bate no quadril, a dor parece durar muito mais do que o segundo da batida. Tomar soro, especialmente com remédios para o estômago, me dá a sensação de que tudo dentro do meu corpo vai estourar e a vontade que sinto é de sair correndo. Tem dias em que a buzina do moço que vende pão na bicicleta ou o encontro brusco de um garfo e um copo, ou de um prato e uma pia, ultrapassam os meus ouvidos e causam dores na minha cabeça, ou basta que eu tome um susto para a dor começar. Conversar com alguém segurando uma faca, ou qualquer objeto pontiagudo, na minha direção me dá a impressão de que a faca ou o objeto irão de encontro aos meus olhos. Os fogos do Ano Novo me causavam desespero quando eu era criança, hoje só me angustiam, assim como os relâmpagos. Fico meio zonza e sinto como se eu não estivesse prestando atenção em mais nada em uma conversa com mais de três pessoas. Ficar acordada de madrugada me dá enjoo, um dos motivos para evitar baladas, onde eu adorava ir para dançar; nos últimos anos me sinto triste dançando e cheguei a chorar e sentir falta de ar em uma pista de dança. Outro dia um moço estava passando mal no metrô e eu não sabia como oferecer a minha garrafa de água para ele porque parecia que eu começava a assimilar o mal estar dele, o que fez eu me lembrar de quando uma amiga da faculdade chegou na sala de aula devastada e com o comportamento bastante alterado e eu me sentia não só preocupada, mas desesperada com a situação. Naquela noite não consegui dormir. A falta de ação pode ser consequência de eu não ter sido criada para agir e ajudar, mas só para ser protegida. Os enjoos, como eu apontei, devem ser sintomas de ansiedade. As dores de cabeça e a sensibilidade nos ouvidos podem estar relacionados à minha disfunção da articulação temporomandibular, problema que eu gostaria de investigar com o afinco que Hustvedt pesquisou a sua doença, mas não consigo tempo para me debruçar em tantos livros de diversas áreas e por enquanto não penso que sou tão inteligente quanto ela para elaborar um trabalho de tanto fôlego para entender a própria doença. Talvez eu não tenha sintomas de sinestesia reflexiva, talvez só tenha sido um encanto e um sentimento intenso de conforto e acolhimento ao me encontrar nas páginas 112 e 113 do livro de Hustvedt.
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