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quarta-feira, 31 de agosto de 2016

"Deve-se queimar Beauvoir?" na Biblioteca Mário de Andrade


Deve-se queimar Beauvoir?
Oficina
Dia: 17 e 24, das 14h às 17h
Local: Sala infantil
A proposta da oficina é apresentar um panorama da vida e da obra de Beauvoir, com o foco nos conceitos filosóficos da autora necessários para compreender a sua análise sobre a mulher na sua célebre obra sobre o tema, O segundo sexo (1949). O objetivo é discutir o trabalho da escritora além dos aspectos acadêmicos. No último dia da oficina, cada participante terá espaço para apresentar sua produção ou manifestação inspirada na experiência adquirida nos encontros.
Juliana Oliva graduou-se em Filosofia pela Universidade São Judas Tadeu em 2007. Em 2014, como bolsista Capes, concluiu o mestrado em Filosofia com a dissertação Identidade e reciprocidade em O segundo sexo de Simone de Beauvoir. Atualmente, é doutoranda em Filosofia e bolsista da Capes pela EFLCH-Unifesp, onde pesquisa a relação erótica autêntica como imagem da reciprocidade entre homem e mulher em Simone de Beauvoir, a partir dos conceitos de O segundo sexo e das representações na obra literária Os mandarins.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Deve-se queimar Beauvoir?



 flyer lindo divulgado na página do Mafalda



 




Olá. Meu nome é Juliana Oliva e eu estudo Simone de Beauvoir. Oi. Eu sou a Julie, eu saí do facebook há mais de dois anos e eu posto poemas confessionais neste blog anonimamente. Ah! Antes de tudo, dizem que eu sou uma mulher. Eu sou?
Foi da vontade de sumir que vai e volta, que anda fortemente presente nos últimos meses, que surgiu a ideia de criar este blog e, mais tarde, de sair do facebook. Sumir ao menos na vida virtual então. Não tem mais Julie nem Juliana Oliva, fica a better version of me, esta, talvez nem sempre melhor. Foram quatro pedaços de felicidade, quatro dias em que encontrei, graças à querida Renata, dez garotas (Alessandra, Beatriz, Gabriela, Graziela, Jessica, Julia, Lauana, Midria, Thainara e Zaira) e um garoto (Gabriel) no cursinho Mafalda SP Leste I, que me fizeram sair do anonimato neste blog. Ou melhor, não fizeram nada, na minha experiência com elas, com ele, desvelei o mundo de outra forma e escolhi dizer aqui quem eu sou, e o que eu fiz: um curso de férias.
"Deve-se queimar Beauvoir?", inspirado no título do texto da autora "Deve-se queimar Sade?", foi o nome que escolhi para o curso. A ideia era contar sobre a vida e a obra de Beauvoir e ensinar um pouco sobre a sua perspectiva filosófica e a aplicação desta no que diz respeito ao problema - aos problemas! - da mulher - das mulheres! - no célebre O segundo sexo, mas... partindo do que se diz sobre a autora, das frases atribuídas a ela nas redes sociais e do que cada participante conhecia a respeito. Acredito que consegui realizar a proposta. 
Foram quatro encontros. No primeiro dia perguntei "quem é Beauvoir?". "Beauvoir" era um nome frequente no facebook associado aos feminismos, era tema de uma pergunta do ENEM ou era apenas um nome que aparecia no título de um dos cursos de férias do Mafalda. Aos poucos, Beauvoir ganhou corpo na nossa sala, não apenas pelo que eu ensinava nas minhas longas falas que estouravam o tempo que eu pensava que a aula duraria quando escrevi a proposta, mas a cada olhar, a cada dúvida, a cada contestação, a cada comentário, a cada reflexão e principalmente, a cada reação contra a situação de machismo que ainda persiste. Situação que transcendemos ali dentro. 
Minha proposta para terminar o curso era abrir espaço para que cada participante expressasse na linguagem que preferisse o olhar que adquiriu ao longo dos encontros. O resultado foi lindo: um jogo de palavras, um poema, da Midria, a lembrança da Graziela da letra de "Pais e filhos" da Legião Urbana, o desenho que a Gabriela fez da Beauvoir, o desenho da Zaira inspirado no curso, o texto sobre Beauvoir e O segundo sexo escrito pela Jessica e a palavra final da Julia à pergunta "Deve-se queimar Beauvoir?"! Decidimos que não. 
Com este texto, agradeço à Re, ao cursinho Mafalda, a funcionárias e funcionários da UNICID (espaço que abriga o Mafalda), às alunas e ao aluno incríveis que tornaram o curso possível e à Tati Schunck (a maior incentivadora da escrita e da divulgação da proposta), e reitero que desejo muito que "Deve-se queimar Beauvoir?" aconteça em outros espaços. 
Eu sou a Juliana Oliva, mas podem me chamar de Julie. Às vezes eu canso de tudo, mas Beauvoir e muitas pessoas lá fora me lembram de que vale a pena não sumir. Então apareço. 




Alunas que estavam presentes no último dia do curso.





o presente que ganhei da Gabriela






O poema da Midria:


Durante todo o tempo de nossa existência

Uma questão que deve se manter em eminência 

É a da prática iminente da ausência


Da ausência de justificativa

Da valorização transcendental de toda liberdade original

De compensar o peso de suas ações sobre a terra

E perceber que a vida é como um nau:fragia ou não

A partir do que se entende e se faz dela afinal


nossa foto feita pela Julia


o texto da Jessica

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Desfile


Da mãe segue os passos
na terra ou no asfalto,
no boletim de ocorrência
ou na concorrência entre espelhos.
Na vinda vermelha, no vestido vermelho.
No vermelho do beijo e da
bofetada!
Abre aspas:
"Vestida de vermelho e prata, ela evocava os sons e a imagem dos carros de bombeiros ao irromperem pelas ruas de Nova Iorque, alarmando o coração com o gongo violento da catástrofe; toda vestida de vermelho e prata, o vermelho e prata dilacerantes, a abrir caminho através da pele. A primeira vez que olhou para ela ele sentiu: 'vai-se incendiar tudo!' "*
Fecha aspas.
Delineou com tantas cores, Anaïs Nin em
"Uma espiã na casa do amor".
Escurece o vestido.
Sapatos esquecidos.
Espaços são tecidos,
estampados,
tem um viés novo.
Salve a escrita como troca de vestido,
de mundo.
Desvia o rumo, o rosto.
Acorda.
A cor do coração devém roxo.

*NIN, Anaïs. ”Uma espiã na casa do amor". Lisboa, Vega, 3a. edição, p. 21.






Poema escrito para a foto 01, de Lucille Kanzawa, do 2o. Foto Sarau, realizado em 28.02.2016

domingo, 20 de dezembro de 2015

belladonna

Enquanto sufoco na incessante busca por meu lugar no mundo e nos efeitos do ibuprofeno, parentes cumprem suas obrigações morais me presenteando com uma colônia com fragrância de cereja ou uma camisola com estampa de corações e poodles. Mal sabem o quanto detesto perfume e como cachorros, especialmente os poodles, muitas vezes me irritam. Meu coração pertence aos gatos. Tenho dormido com uma velha camiseta em que fiz um desenho do Bowie. Acreditam que, em seu lugar, a mulher tem cheiro de fruta e veste a ambiguidade, anda na corda bamba entre a menina dos cachorros e a mulher na camisola sensual, a mulher grande em uma pequena camisola tamanho M, esperando, é claro, um homem. Mal sabem que deixei esse lugar e que já não espero ninguém.
Ontem esperava Lydia. Esperava sentada sufocando na busca e nos efeitos, e também na tarefa de entender e explicar o significado de pulsão. Pulsão, que não é um estímulo que provém do exterior, mas de dentro do organismo, parece até aquela maldição que eu sinto. Não sei se foram os efeitos do ibuprofeno ou do período menstrual, ou se foi Lydia no palco sendo o que não sou (she owns the place!) que me fizeram desistir de pisar nesse lugar outra vez. Lydia, que parecia imune a todas as violências das relações amorosas, a todas as frases feitas e feias (como a velha "estou me separando") ou a todos os comentários que nos diminuem ("até ela conhece essa banda!") gritava, proferia o seu mundo em nós e arrancava dos homens de sua banda os sons mais arrebatadores que criavam uma atmosfera de transe. Sessão descarrego, recarga de energias, algo intenso que eu mal sabia que sentiria.
Não sei quantas vezes desisti de escrever isso. O remédio se foi, Lydia me salvou. A música sempre me salva. Hoje, curiosamente, um ano desde a morte da nossa gata, a homeopatia e a fitoterapia me salvam do perfume e da camisola, desse lugar de cadela que leva chutes e então deita e rola, esperando o próximo chute e a chegada das visitas, quando devem prendê-la, guardá-la para que não seja vista. Não sei se é a maldição mensal ou aquela maldição de ser "a outra" que começam a me mover desse meu lugar que ainda nem encontrei.

domingo, 13 de setembro de 2015

How soon is now?
How soon is never?
Reconto as horas.
Recordo as ameaças.
Recorto as nossas feridas
Femininas (all the time) (tout le temps)
Fingimos de mortas, (bem)
vestidas, desinteressadas,
castas, simpáticas -
sim sim sim NÃO!
Se emancipadas,
é uma facada.
Forçadas, tocadas,
feridas, caladas,
Forjadas.
Frígidas,
Não gritam mais.
Não sei se fujo ou se penso em suicídio
quando vocês nos lembram
que a hora não passa
num pulso feminino.

domingo, 9 de novembro de 2014

Como (des)construir uma mulher feia


 impressões sobre o filme Violette

Simone de Beauvoir se refere à Violette Leduc, nas cartas que escreve a Nelson Algren, como “a mulher feia”. Foi com alguma chateação que li e reli essas palavras e as reclamações de Beauvoir sobre as vezes em que jantava com Leduc. Aguentar a mulher feia parecia um fardo. Daí eu me lembrava de algumas parentes e vizinhas, que infelizmente estiveram muito presentes na minha formação – e que ainda insistem em invadir o meu espaço e da minha família –, que se dedicam a uma vida de aparências, que caluniam os outros, que criam intrigas nas vidas alheias enquanto se escondem atrás de sorrisos, cumprimentos cordiais e discursos em nome do amor. O fato de Beauvoir ter amizade com Leduc e rotulá-la como “a mulher feia” me remetia mais a esse tipo de pessoa – as parentes e as vizinhas – do que à mulher que desmantelou o Eterno feminino, tão nocivo às mulheres, e que chamava a atenção das mulheres para que elas se unissem. Mas nessas cartas já era também uma surpresa o encanto no qual ela se enredava em sua paixão por Algren.
Nunca fui atrás de outros escritos sobre Violette Leduc, nem dos escritos dela; em um livro sobre Beauvoir encontrei uma foto dela e não pude deixar de pensar em sua aparência, achei a mulher... feia; mas feia para mim, não universalmente feia. Mas eis que surge um filme sobre Violette Leduc: Violette (Violette, direção: Martin Provost, França, 2013), em que a saga de Leduc para tornar-se escritora e a amizade com Beauvoir são narradas com a importância que Leduc merece, com ênfase em sua escrita poética e com uma imagem forte e essencial da presença de Beauvoir na vida da escritora.
O filme mostra Violette já adulta, desde quando ela começa a arriscar as suas primeiras palavras pensando em escrever um livro - na época em que ela ainda roubava comida e negociava no mercado clandestino para sobreviver aos estragos da guerra – até o reconhecimento de sua obra que a permite caminhar com as suas próprias pernas e ter a própria vida em suas mãos de escritora.
Não poderia confrontar o que assisti com a vida de Leduc, já que esse filme é minha única referência a respeito dela. Nele, o que vi foi uma Violette Leduc inteligente, que mesmo sem ter estudado ou trabalhado, escrevia muito bem, mas que era ávida por algo que preenchesse ora o seu coração, ora o seu corpo. Ela buscava uma mulher, um homem, outra mulher, outro homem, alguém que a desejasse carnalmente mas se sentia, na maior parte do tempo, uma mulher feia que ninguém desejava. Ao mesmo tempo, ela queria atenção, talvez a atenção que não tivera da mãe, a quem ela acusa de nunca ter segurado a sua mão, mas somente a manga da sua blusa, para atravessar a rua quando criança. Leduc lamenta e se revolta o tempo todo pelo tempo que as coisas levam para acontecer para ela, ou por tudo o que deu errado em sua vida, e ela tem a si mesma como causa de todos esses estragos; quando ela se irrita com a mãe e esta lhe pergunta o que fizera a ela, Leduc responde: “Você me fez!”
Leduc parece buscar alguém mas desconfia de todos ao seu redor, outras vezes se apaixona e logo se decepciona por não ser correspondida da forma que espera. Ela chora em desespero como se todos fossem culpados pelos seus atos, e ela, culpada pelo que é, pelo que se tornou. Mas é nas relações intersubjetivas, mesmo que essas sejam tão espinhosas, que Leduc consegue alcançar alguma paz e satisfação em sua vida. Em Paris, na casa de um amigo do amigo que a magoara, ela encontra jogado o livro A Convidada de Simone de Beauvoir, ela leva o livro para casa, lê e decide entregar os seus escritos à Beauvoir, que os aceita, lê e passa a ajudar Leduc a publicá-los e a escrever mais. Mas Leduc se apaixona por Beauvoir, a cerca, cobra atenção, coleciona as suas fotos e a tem como objeto de desejo; atentando à essa situação, ficou bem mais fácil entender que Beauvoir carregava um fardo, já que Leduc não a deixava em paz e era um tanto insistente. Contudo, Beauvoir não a agrada, não a incentiva ao choro desenfreado, não a tem como coitada, não passa a mão em sua cabeça, mas sempre a impulsiona a escrever mais, e lhe mostra a importância desse trabalho. Beauvoir não deixa a amiga desistir, assinala a importância da busca por autonomia, e também a importância de contar sobre o aborto que fizera, sobre a sua sexualidade e sobre as suas experiências homoeróticas para ajudar outras mulheres. Beauvoir envia a Leduc, se passando pela Editora Gallimard, um pagamento mensal para que ela se sustente; além disso, Beauvoir também a acompanha no seu processo de recuperação em uma clínica quando ela adoece, levando as cartas e o reconhecimento da crítica nos jornais, que finalmente começam a surgir para o trabalho de Leduc. Assim, compreendo o quanto Beauvoir fez por Leduc, e se ela a chamava “a mulher feia” quando falava dela aos outros, ela de alguma forma preservava a sua identidade; para Beauvoir Violette Leduc era uma escritora, a tornar-se conhecida, com um trabalho importante por fazer pelas mulheres, e “a mulher feia” era a sua amiga carente que a idolatrava e cobrava demasiada atenção, que fugia desse trabalho e que se escondia em um ser-mulher-feia.
É preciso o reconhecimento de seus projetos, que lhe trazem sustento e a aprovação pelo olhar do outro, e quando ela se debruça sobre o trabalho e recebe esse reconhecimento, vemos uma mulher cuja aparência lhe pesa menos, que respeita a liberdade de Beauvoir na relação que elas mantém, que abre espaço para que as pessoas se aproximem dela e até mesmo a desejem, e que não dá tanta importância quando alguém a abandona.
Leduc encontra um lugar no campo para viver, e é nesse lugar que ela está apaziguada, sem asfixia, sem ser a filha bastarda, sem estragos (Asfixia, A filha bastarda e Estragos são títulos de seus livros), escrevendo no final do filme, enquanto Beauvoir está na televisão falando do percurso de Leduc e da contribuição que ela fez às mulheres que, naquela altura (década de '60), já tinham a permissão para abrir conta em banco, sem o marido (exemplo mostrado no filme).
Vejo no final do filme uma lente feminista, que exalta toda e qualquer emancipação da mulher, por meio do trabalho, do coletivo, da amizade entre duas mulheres, da literatura a partir de confissões íntimas que falam com e por muitas outras mulheres. Sozinha, Leduc existia enquanto mulher feia e assim insistia em mostrar-se ao mundo. Beauvoir a força a deixar de lado a má-fé da feiúra e a assumir a própria existência para além do seu corpo, a fazer de si o que não seja “a mulher feia”. A feiúra de Leduc não está em absoluto no seu rosto, mas está nos maus tratos às mulheres solteiras que recusam o casamento, às mulheres lésbicas, às mulheres que abortam; a feiúra de Leduc é construída pela sociedade que a convence a assumi-la, e é escutando Beauvoir que ela vira a mesa e desconstrói a sua feiúra ao expor a sua singularidade: a sua sexualidade, e a sua vontade de não casar e de não ser mãe, como escolhas de qualquer mulher, de muitas mulheres, que se tornam feias aos olhos da moral dominante. É nesse momento que o penteado, as roupas e a maquiagem de Leduc mudam; ao meu ver, ficam mais harmoniosos e mais bonitos, mas longe de tentar impor à mulher um modelo de aparência para que ela fique bonita, prefiro entender que ver uma Leduc bonita na tela corresponde a um tornar-se bonita – independente de como se dá esse tornar-se – que representa um tornar-se o que quiser, deixando assim de existir enquanto mulher feia. 

sábado, 26 de julho de 2014

A última novela que acompanhei terminou na semana passada

A novela Em família terminou há uma semana e durante esses sete dias tenho pensado que todas as noites em que parei o que estava fazendo para sentar e ver a novela com olhos e ouvidos bem abertos às personagens femininas não foram uma busca por entretenimento, mas um exercício de análise dessas personagens. Não foi uma análise planejada, não adotei nenhuma base ou critério para analisar, somente a minha cabeça de "sujeita feminista", se assim posso me definir (não sou parte de nenhum coletivo, sou apenas uma), junto a tudo que já li e estudei sobre mulher. É verdade que os últimos meses tem passado muito devagar para mim e que todas as coisas importantes que tenho para fazer e todas as outras que arrumo para me distrair não preenchem esse tempo - últimas aulas para dar, provas para corrigir, leituras para o doutorado, ser leitora de um amigo, rever algumas pessoas queridas, passar a roupa, fazer almoço, lavar a louça, limpar e arrumar o quarto, o treino e a aula de alongamento na academia, a cada dois dias colocar dois livros da pilha de livros que comprei em sebos, desde que comecei a comprar livros, em sacos plásticos com bicarbonato por dois dias e depois limpar as suas capas... nada disso preenche tão bem as vinte e quatro horas de cada um dos dias que antecedem o trinta e um de julho, quando uma resposta que aguardo será divulgada. Então, no meio disso tudo coube a novela dita "das oito", que começava por volta das nove da noite. 
Apesar do meu foco ser aquilo que era identificado como feminino na novela, quem começou a me chamar a atenção foi o personagem Laerte (Gabriel Braga Nunes, ator acusado de agredir uma travesti em 2007 -http://ego.globo.com/Gente/Noticias/0,,MUL320047-9798,00-GABRIEL+BRAGA+NUNES+E+ACUSADO+DE+AGREDIR+TRAVESTI+ENVOLVIDO+NO+CASO+ROMULO+.html) que, quando jovem, enterrara vivo Virgílio (Humberto Martins), seu amigo (oi?), após uma briga por causa de Helena (Julia Lemmertz), a Leninha, quem os dois diziam que amava. Em determinado momento da novela - uns capítulos antes de eu começar a acompanhar - Laerte ressurge como o flautista galã que arrasa corações, o que me fazia a todo momento comentar com a minha mãe que seria bastante grave se fosse esquecido ao longo da novela que Laerte enterrou o coleguinha vivo e ele passasse a ser visto como o moço adorável. Acho que comecei a assistir Em família para ver o que o horário nobre da Globo queria nos mostrar, afinal, agredir um dia e virar galã no outro é o que a gente vê por aí, né, dentro e fora das telas. Depois do Laerte, outro susto, este maior, decisivo para que eu decidisse acompanhar a novela: a tia mais nova da Leninha, Juliana (Vanessa Gerbelli) não consegue engravidar e para tornar-se mãe tem ideias (e dá ideias às telespectadoras) bastante arriscadas, como torcer para que Gorete (Carol Macedo), sua empregada, não resista ao acidente que sofreu para que a filha dela, Bia (Bruna Farias), torne-se sua filha. Ou ainda, depois que a Gorete morre, Juliana seduz Jairo (Marcello Melo Jr.), marido da falecida Gorete, para que ele se case com ela, para que ela possa ter a Bia como filha. Só que a Juliana e o Jairo mal se conhecem, ela coloca um estranho em sua casa e oferece a si mesma a ele para realizar o tal do "sonho de ser mãe". Ora, e a adoção, a "barriga de aluguel"... ? Nada disso sequer é considerado e essas ideias ridículas da Juliana são levadas adiante e aceitas na novela quase com naturalidade. Eis o problema dois em Juliana & Jairo: Jairo é um machista daqueles que exige 24 horas de disponibilidade da mulher na cama só por que ele quer, mas o Jairo também é aquele personagem que as novelas da Globo chamam de "cara da comunidade", sabe? O Jairo é de uma classe social mais baixa do que a Juliana, ele mora em um bairro afastado, pouco asfaltado, e aí a coisa toda dá um nó, ele vem de outro meio e ele é um babaca... então fica a pergunta: por que o babaca machista tem que ser o tal do "cara da comunidade"? Por outro lado, a Juliana, moça de família rica que não trabalha, quer mudar o Jairo... ela não gosta do jeito que ele age, mas ela não percebe que eles não tem nada em comum a ser vivido, e ela segue com aquela ideia de primeiro escolher o cara e depois moldá-lo, na vestimenta, no comportamento e (pasmem!) na alimentação. Essas diferenças fazem alguns dos altos, beeem altos, e baixos, beeem baixos da novela, até que no final a gente entende que eles continuarão vivendo assim para sempre, agora junto com Nando (Leonardo Medeiros), ex-marido da Juliana e verdadeiro pai da Bia (todo aquele trabalho da Juliana em seduzir o Jairo para ganhar a Bia... é, foi em vão), "rival" do Jairo em disputas de afirmação de masculinidade, onde vale até disputar quem conseguiu engravidar a Juliana do filho que ela "segurou" (Jairo) e quem não conseguiu (Nando).
Deixo a Juliana de lado e volto à Leninha para fazer apenas um comentário, já que não tenho a intenção de contar a novela inteira, mas de chamar a atenção para aquilo que me fez pensar no que havia de perigoso, mas também no que havia de mudança positiva, em uma novela com personagens femininas tão complexas. Mas então... a Leninha, de quem não tenho muito o que falar, em determinado momento de nervoso, ao ser contida pelo Virgílio, seu marido, diz que toda mulher gosta ou quer ou precisa (não me lembro qual dos três) ser contida. Ouvir uma vez essa frase já me deixou nervosa, imaginem ouvir duas! - em outro capítulo ela aparece lembrando da cena. Por que seria bom para uma mulher ser contida, ser mais contida do que toda a sociedade já a contém? Aliás, contida é a filha da Leninha, Luiza (Bruna Marquezine), pelo seu namorado, grande amor, super galã, ex-namorado da mãe dela que enterrou o pai dela vivo, quem, quem, quem... Laerte. Ele passa a novela toda fazendo juras de amor loucas (propõe um pacto de sangue, enche a casa dela de flores após uma briga) enquanto não permite que a menina frequente festas da faculdade, a incentiva a deixar os estudos, tem ciúmes dela quando ela conversa com outros homens e a trata com autoridade, como se fosse dono dela. Luiza é a mulher maior de idade mais nova da novela mas é a mais cerceada, o que me fez pensar que isso pode ser um alerta positivo, dependendo de como encarado, para a geração atual de que essas meninas não estão imunes ao machismo e a tornarem-se presas de namorados dominadores que se desculpam com o famoso "eu te amo". 
A melhor amiga da Luiza é Alice (Érika Januza), a personagem em que vi mais força e indignação. Alice é negra e filha de Neidinha (Elina de Souza). Neidinha engravidou de Alice em um estupro, e ao descobrir isso, Alice persegue a história de sua mãe em busca do estuprador da mãe, primeiramente aparentemente com alguma curiosidade em saber quem seria o que a sociedade chamaria seu "pai", mas depois em busca de vingança. Neidinha carrega um trauma pesado, o que serve para mostrar que um estupro não é algo simples de se lidar, mas a novela escorrega quando a personagem está em uma conversa na qual a mensagem passada é que uma criança não deveria pagar pelo estupro, por isso ela não abortou e seguiu com a gravidez, o que descarta qualquer discussão sobre aborto com a sociedade na novela. O horário nobre da Globo bate o martelo encerrando a conversa sobre o aborto, quando um outro ponto de vista poderia confrontar o da inocência da criança, o da inocência da mãe, que também não deveria pagar pelo estupro, levando adiante uma gravidez indesejada. Por outro lado, voltando à Alice, na sua busca por justiça, ela se aproxima de uma ONG que combate a violência contra mulheres, torna-se policial e dispensa o namorado que não a apoia na nova carreira. Ela é corajosa, chegando a colocar-se como isca para capturar um estuprador, atitude que considero bastante arriscada, e tema arriscado também, pois ela se coloca como isca de maneira desprevenida e até um pouco ingênua no começo, chegando a sofrer uma tentativa de ataque, o que pode gerar aquele famoso "bem feito, quem mandou se arriscar?", que mina várias discussões sobre estupro há muito tempo. Mas ainda assim eu gostei de ver uma personagem como Alice: mulher, negra (com cabelos cacheados ao alto, detalhe que admirei na novela - não alisaram os cabelos das mulheres negras!!!), corajosa, inteligente e independente. Pena que no final ela se casa de repente com um colega de trabalho fofo, não que ela não possa se casar, mas fiquei com a impressão de que imperou aquele discurso que diz que apesar de ser livre e independente, toda mulher busca o tal do príncipe encantado. 
O casamento de Alice - que ocorreu junto com o da mãe - foi celebrado por uma mulher, a segunda mulher a celebrar um casamento em Em família. A primeira mulher a unir um casal uniu outras duas mulheres, Clara (Giovanna Antonelli) e Marina (Tainá Müller). Sim, mulheres se amaram e se casaram em uma novela, e não houve explosão em shopping center!!! Clara e Marina também me empolgaram a ver a novela até o fim e confesso que até mais ou menos a metade eu estava muito pessimista, achando que não haveria nenhum avanço no tema. Mas fiquei surpresa. Ok, os poucos beijos entre as duas (acho que foram dois) eram quase fraternais e a vida sexual delas foi ignorada. Por um lado, houve uma coisa boa, não teve "rufem os tambores que hoje tem beijo/transa entre duas mulheres!", como já houve em novelas em que havia personagens gays; por outro lado, vimos beijos e mais beijos, transas e mais transas, de todo casal da novela, todos heterossexuais, e entre elas, tudo foi discreto, ou seja, isso destoa, e sabemos o motivo. Mas tem mais! No início da novela a Marina era uma personagem mega mimada, chata e insistente que cercava a Clara como vários carinhas que não entendem um "não", além disso a Marina era colocada em cenas com as amigas, também lésbicas, que pareciam exalar sensualidade, o que era bem forçado. Enquanto Clara começava a amar e desejar uma mulher pela primeira vez, tendo que decidir se ia atrás do que sentia, ou se ficava em seu casamento tido como ideal com Cadu (Reynaldo Gianecchini), que acabara de passar por um transplante de coração. A essa altura eu me irritava com a novela e imaginava que o pior rumo seria tomado, mas não! De repente, já nas últimas semanas, a Clara já tinha se separado, considerava morar com Marina, a família aceitou, o ex-marido aceitou, o filho aceitou com naturalidade, os personagens da novela faziam comentários positivos sobre Clara e Marina juntas, cenas de homofobia foram mostradas com repúdio e elas se casaram! E fora da novela, Giovanna Antonelli foi a estrela da publicidade, de joias a esmalte, a personagem mulher que se apaixona por outra mulher foi escolhida para ditar a moda e foi aceita, a foto dela está ali ainda, no vagão do metrô e na perfumaria - não que eu goste desse universo da publicidade, mas ele existe e influencia muita gente. Tá, há mundos muito mais justos e bonitos do que esse de novela-de-horário-nobre-da-Globo-mimimi, onde essas coisas acontecem porque podem acontecer e não como um favor, mas é justamente por esse não ser dos mundos mais justos e bonitos que eu não esperava tudo isso acontecendo, e aconteceu, o que não podemos negar que funcione com alguma contribuição, afinal muitas pessoas enxergam o mundo por meio do que "na novela pode", "na lei pode" - é lamentável mas isso existe. 
Mas apesar de Clara e Marina terem paz e um final feliz, Cadu foi disputado por duas mulheres, Verônica (Helena Ranaldi), com quem ele fica no final, e Silvia (Bianca Rinaldi), o que me parece um lembrete de que a Clara estava dispensando ninguém mais, ninguém menos, do que o Gianecchini, aquele que nos enfiam na tv como "o galã". A Silvia, a que não fica com Cadu, fica com seu amigo Felipe (Thiago Mendonça) que implorou o amor da moça durante toda a novela, e aí vem outro problema grave, algo que me incomodou demais. Silvia resiste a Felipe, ou realmente o enxerga somente como amigo, durante a novela toda, mas ela transa com ele quando está muito bêbada (bebedeira que ela procura depois de ver Verônica e Cadu se beijando) e ele está sóbrio, verdadeiramente e incrivelmente sóbrio, depois de passar por uma reabilitação, ele nem tenta resistir à situação e tira proveito disso, e acorda ao lado dela com cara de bobo apaixonado. Felipe transa com Silvia alcoolizada (ponto final). E tá tudo bem pra Globo. No máximo ela acorda assustada de manhã ao lado dele nua e dá aquela bronquinha nele que a gente dá em quem só fez uma brincadeirinha sem graça com a gente. Ora, isso é sério! Esse talvez tenha sido o maior passo para trás de Em família, muito bem camuflado pelo fato de Felipe ser o menino sonhador e apaixonado pela moça da qual ele se aproveita e pelo fato de ela já estar começando a vê-lo como mais do que um amigo. Mas muito curioso a cena ser protagonizada por um ex-alcoólatra. Felipe insiste ao longo da novela no mal que o álcool lhe faz, ele é humilhado e chega a ser proibido temporariamente de exercer a sua profissão - ele é médico - por causa de um erro cometido por ele em um paciente quando  estava alcoolizado. Como Felipe, que fez coisas que não desejava, foi humilhado por sua condição de alcoólatra mas que recuperou o respeito de todos, foi acolhido no AA, negou a vida em dependência do álcool quando buscou a reabilitação, passa por cima da vontade de Silvia, aquela que ele diz que é o grande amor da sua vida, quando ela estava alcoolizada? Fiquei chocada e nenhuma explicação ou debate surgiu após a cena.
Outro grande deslize foi com as empregadas, Gorete, Guiomar (Jéssika Alves), Rosa (Tânia Toko) e Zu (Gisele Alves). Ainda persiste a ideia de uma família adotar uma empregada doméstica que dorme, ou melhor, vive, no local de trabalho, por muitos anos, e que não tem a própria vida, nem a própria história, mas que é parte da família, como se isso fosse um grande carinho que elas recebem.  
Enquanto isso, outro dia vi na banca de jornal a Tainá Müller, a Marina, em uma pose sensual na capa da revista VIP com aquelas frases que oferecem aos homens o corpo e a beleza da moça, e há pouco, nas minhas pesquisas no Google dos nomes das atrizes e dos atores que interpretaram personagens que citei aqui, fiquei sabendo que Jéssika Alves, a Gorete, será capa da revista masculina Playboy. Parece que lá fora o mundo segue como antes, que o corpo das mulheres como objeto de desejo ainda é oferecido, mas ainda assim persisti em me lembrar de tudo o que eu queria comentar e chegar até o fim desse texto. Não comecei a assistir a nova novela porque logo o segundo semestre começa e a minha ansiedade vai baixar, além da correria que vai ressurgir, mas desejo que pelo menos algum debate ela suscite e que olhares críticos a mirem de vez em quando. Ah, não disse no começo, mas eu não tenho hábito de ver novela, novela é algo que não me prende a atenção, por isso até o final de Em família não parei de me perguntar pelo motivo que me fazia correr para a frente da tv fazendo previsões, debates e comentários com a minha mãe, com uma sede curiosa pelo que viria. São alguns dos pontos que apontei aqui que explicam esse período que vivi.


P.s.1: O post que nunca termina! Bárbara (Polliana Aleixo) foge do padrão magrela ou gostosa ditado pela tv e não é ridicularizada (mas pena que ela emagrece um pouco depois) e além disso, ela espera o tanto que ela quer para ter a sua primeira transa. Ah, mas o mesmo Google que me deu o nome da atriz me deu também a informação de que a revista Playboy está rodeando a moça.
P.s.2: Não paro de lembrar. Ninguém cansou ainda de personagens como Branca (Angela Vieira) e Shirley (Vivianne Pasmanter), que vivem em função de se vingar ou de reconquistar um homem e destruir todas as mulheres que se aproximam dele? As atrizes são ótimas, pra que colocá-las em personagens que vivem pelas glórias do amado e alimentam a rivalidade entre mulheres?
P.s.3: O final! No final da novela Laerte é assassinado na porta da igreja após o seu casamento com Luiza. Quem dispara o tiro é Lívia (Louise D'Tuani), uma das cinco mulheres que já se apaixonaram por Laerte. Como água parada, não há grandes movimentos da personagem na novela, no final é ela quem causa o estrago maior. Considerando que as novelas matam aqueles que merecem condenação, parece que o que Laerte fez, incluindo a posse doentia que ele pretendia ter de Luiza, foi repudiado de alguma forma. Contudo, a atiradora é simplesmente levada pela polícia e desaparece da novela, como "a assassina" ou até mesmo "a louca ciumenta", quando poderia ter sido explorado o que leva Lívia a assassinar Laerte depois de escutá-lo dizer a Verônica que só estava enrolando a moça, após Verônica contar que Lívia estava completamente apaixonada por ele e por isso terminara um namoro de dois anos.
P.s.4: Se eu lembrar de algo a acrescentar, escreverei aqui. 

sábado, 21 de setembro de 2013

Anônima mulher

Mulher, qual é o seu nome?
Acorda, mulher!
Quem é você?

Mãe, amiga, amante, filha,
Perfeita, cheirosa, carinhosa, frígida.
Uma barriga, um objeto; e o nome?

O que leva o seu nome, mulher?
Os objetos da casa e os enfeites do corpo?
O corpo ao lado dos objetos?

Acorda o corpo, mulher!
Quem é você?
Você não é objeto!

No corpo, as marcas;
Na identidade, um vazio;
A boca, sem voz:
Só um grito contido.

Salta alto,
Sangra e compra briga
Com quem a obriga.

Quem é você nesta briga?
Por que cala por uma medalha?
Escolha estourar esta muralha, mulher!

Quem é você?
Anônima, sem sombra,
Desejada como silhueta.

Boneca de carne,
Qual é o seu nome?
Quem a cala?

Confinada em casa
Na redoma de vidro,
Eterno feminino!

Roupas a apertam,
Vermelho nos lábios impera,
Máscara em seus olhos e na sua fala.

Fala, mulher!
Qual é a sua resposta
À farsa que a forçam?

Mulher, acorda! Quem é você?
Mulher? Onde está você?!
Acorda!!! Acorda... Mulher?